Entre cachaças, relíquias e a Linha de Tordesilhas: o Bar Museu transforma histórias de Goiás em atração turística

Por Cintia Ferreira

Quem passa pela pequena e tranquila Praça Santo Antônio, no distrito de Olhos d’Água, em Alexânia (GO), pode até imaginar que está diante de mais um simples bar do interior. Mas basta atravessar a porta estreita do Bar Museu para descobrir que o local guarda muito mais do que bebidas artesanais.

Ali, cada garrafa, fotografia, ferramenta antiga e objeto enferrujado carrega uma história, é uma verdadeira relíquia. Algumas remetem ao período dos tropeiros. Outras atravessam décadas da formação da região. Há ainda relatos que misturam personagens curiosos, visitantes famosos e até uma conexão histórica com um dos acordos mais importantes da expansão territorial do mundo: o Tratado de Tordesilhas.

O responsável por manter viva essa coleção de memórias é Antônio Morais, conhecido por moradores e turistas simplesmente como Seu Antônio. Sentado atrás de um antigo balcão de madeira desgastado pelo tempo, ele recebe visitantes de todas as partes do Brasil para uma conversa que pode durar minutos ou horas. “O povo vem de longe para conhecer o bar. Vem para ver as antiguidades, tomar uma pinga com raiz e ouvir as histórias”, conta.

A história do Bar Museu começou de forma simples e inesperada, os itens antigos foram sendo adquiridos e incluídos no acervo. Nascido no município de Corumbá de Goiás, Antônio Morais chegou à região de Olhos d’Água aos 25 anos. Trabalhou em fazendas, cuidando de propriedades rurais, até decidir fixar residência na cidade.

Foi durante o início da década de 1990, na época do governo do ex-presidente Fernando Collor, que ele comprou o imóvel onde hoje funciona o estabelecimento. “Comprei essa casa e mais oito lotes aqui na avenida principal. O bar já existia, mas não tinha esse nome”, relembra.

Segundo Seu Antônio, a esposa costumava adquirir objetos antigos em feiras e mercados de antiguidade. Aos poucos, ferros de passar roupa, chaleiras, panelas, rádios, telefones, estribos e outras peças foram ocupando as paredes e prateleiras. “A mulher comprava um bocado de ferro velho. Aí eu pensei: isso aqui está virando um museu. Foi daí que surgiu o nome Bar Museu”, diz.

Acervo do Bar Museu conta a história dos séculos passados. Foto: Cintia Ferreira/ Jornal Opção

Objetos que contam a história do Brasil

Não há mesas sofisticadas, decoração moderna ou grandes estruturas. O Bar Museu funciona em um espaço rústico e simples. O ambiente possui apenas um balcão antigo, um banco de madeira e dezenas de peças históricas espalhadas por todos os cantos, inclusive no teto.

Entre os itens mais curiosos está uma bola de ferro utilizada durante o período da escravidão. “Era amarrada na perna dos escravos para evitar fugas. Pesava cerca de oito quilos”, explica Antônio enquanto mostra a peça aos visitantes.

Próximo dali estão ferros de passar roupa aquecidos à brasa, chaleiras de ferro, panelas centenárias e estribos utilizados pelos antigos tropeiros que cruzavam o interior do país. Há também rádios, alto-falantes e telefones antigos adquiridos em feiras de antiguidades ao longo dos anos. Cada objeto possui uma explicação detalhada. E Seu Antônio conhece a origem de todos eles.

O legado de Dona Cecília

Parte importante da história do Bar Museu também passa pelas mãos de uma personagem que marcou profundamente o local: Maria Cecília Machado. Conhecida simplesmente como Dona Cecília, ela foi uma das figuras mais populares de Olhos d’Água e ajudou a transformar o espaço em um ponto turístico reconhecido na região.

Nascida em São Paulo, mudou-se ainda jovem para Goiás com os pais e os irmãos. Sua trajetória foi marcada por acontecimentos incomuns. Segundo relatos preservados no próprio estabelecimento, o pai de Cecília possuía duas vendas próximas à Brasília durante a construção da capital federal. Ele acabou morto em circunstâncias nunca completamente esclarecidas pela família.

Ao longo da vida, Dona Cecília percorreu diversas regiões do país ao lado do primeiro marido, um marinheiro que conheceu no Rio de Janeiro. Após ficar viúva, retornou para Olhos d’Água em 2002 ao lado do segundo marido. Foi nesse período que passou a administrar um antigo casarão construído em 1937, onde desenvolveu uma das marcas registradas do local: as famosas garrafadas artesanais.

Misturando cachaça com raízes medicinais adquiridas em cidades vizinhas, ela criou centenas de receitas que atraíram turistas de diferentes estados. As histórias, os causos e a personalidade forte da proprietária ajudaram a consolidar a fama do Bar Museu muito antes das redes sociais. “Cecília foi a primeira dona. Ela deixou um legado muito grande aqui”, lembra Seu Antônio.

Mais de 380 tipos de cachaças artesanais

Se as antiguidades impressionam, as bebidas são outro espetáculo à parte. As paredes do Bar Museu são cobertas por centenas de garrafas contendo infusões de raízes, frutas e ervas. Atualmente, o estabelecimento reúne mais de 380 variedades de cachaças artesanais.

As garrafadas com raízes do cerrado são um dos atrativos do museu. Foto: Cintia Ferreira/ Jornal Opção

Algumas receitas levam gengibre e mel. Outras utilizam sucupira, jurubeba, canela, frutas do cerrado e diferentes combinações de ingredientes tradicionais da medicina popular. “O povo gosta porque cada raiz tem uma serventia. Tem umas para gripe, outras para garganta, outras para o frio. Cada uma tem sua história”, afirma Antônio.

A fama das bebidas ultrapassou as fronteiras de Goiás. Segundo ele, visitantes de vários estados chegam ao distrito exclusivamente para conhecer as famosas “pingas com raiz”. Muitos compram garrafas para presentear familiares ou levar como lembrança da viagem.

Linha de Tordesilhas

Mas talvez o detalhe mais surpreendente esteja do lado de fora. Em frente ao Bar Museu passa a lendária Linha de Tordesilhas, referência ao acordo firmado entre Portugal e Espanha em 1494 para dividir os territórios do Novo Mundo.

Embora historiadores debatam a localização exata da linha em diferentes regiões do país, o tema tornou-se uma das principais atrações turísticas de Olhos d’Água. Seu Antônio faz questão de mostrar aos visitantes o local onde, segundo a tradição preservada pelos moradores, passava a divisão histórica. “Do lado de cá era Portugal. Do outro lado era Espanha”, explica.

A narrativa, somada ao charme da cidade histórica, ajuda a atrair curiosos, pesquisadores e turistas interessados na cultura regional.

O Bar Museu se tornou não é apenas um espaço para beber uma cachaça artesanal ou observar objetos antigos. Funciona como um verdadeiro guardião da memória de Olhos d’Água.

Em uma época marcada pela velocidade da informação e pela modernização dos centros urbanos, o pequeno estabelecimento preserva histórias que dificilmente seriam encontradas em livros ou museus tradicionais.

Entre uma dose de cachaça artesanal, uma fotografia antiga e um objeto centenário, Seu Antônio continua fazendo o que mais gosta: conversar. E é justamente essa simplicidade que transforma o Bar Museu em uma das experiências mais autênticas do interior goiano.

Um lugar onde o passado permanece vivo engarrafado, exposto nas paredes e contado em cada história compartilhada atrás de um velho balcão de madeira.

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