Tem gente que mede o inverno de Brasília pelo vento seco, pela poeira no ar e pela vontade de sumir dentro de um casaco. Neste fim de semana, porém, a estação mais castigada da cidade ganha um antídoto: o Festival de Inverno Sesc-DF 2026 toma o Estacionamento 11 do Parque da Cidade com música, arte e aquele tipo de programação que faz o brasiliense esquecer, por algumas horas, que o ar está seco e o coração meio cansado.
A proposta é simples e generosa: entrada gratuita, curadoria musical de peso e uma agenda pensada para quem tem cinco anos e para quem tem oitenta. Não é um evento de palco fechado e público sentado. É gramado, canga estendida, garrafa de água na mão e gente de todas as idades circulando entre atrações que vão do circo ao jazz.
No centro dessa programação está a cantora Céu, que sobe ao palco para celebrar uma trajetória que já soma quase duas décadas de estrada, com direito a repertório recheado de canções que atravessaram gerações. Em entrevista ao Jornal de Brasília, ela falou sobre presença, sobre tempo e sobre o que sente quando pisa em um palco ao ar livre no fim de tarde brasiliense.
O corpo, a música e a passagem do tempo
Céu não trata suas canções como simples trilha sonora de fundo. Para ela, a música é experiência física antes de ser qualquer outra coisa. “Eu costumo dizer que minhas músicas elas tocam também não só no sentido físico para as pessoas se sentirem com o corpo, mas no sentido emocional”, contou. O convite que ela faz ao público é quase uma instrução de uso: “Respirar, sentir o som, sentir a batida e vir junto com suas canguinhas, com seus corpos, com sua energia maravilhosa. Vamos vibrar junto.”
O show em Brasília carrega o peso simbólico de uma linha do tempo generosa. São vinte anos do disco de estreia, dezessete do aclamado “Vagarosa” e dez de “Tropix”, álbuns que formam a espinha dorsal do repertório que ela leva ao Parque da Cidade. Mas Céu prefere não tratar esses números como peso morto. “O tempo também é uma coisa tão relativa, né, pouco tempo, vamos dizer assim”, disse, antes de comemorar o fato de suas músicas seguirem encontrando ouvidos novos. “Eu fico feliz que eu vejo nesse espaço de tempo as músicas amadurecerem de uma forma temporal, ainda entrando na vida de gerações novas também. É bom demais, é bom demais sempre poder trazer o meu som para todas as gerações, as que acompanharam e as que estão chegando agora também.”

Essa abertura para o novo também explica por que a cantora nunca se deixou prender a um gênero só. Samba, MPB, eletrônica e jazz convivem em sua obra sem hierarquia. “Eu acho que eu sempre segui por uma diversidade, porque é dessa forma que eu entendo a música”, afirmou. “A diversidade cria pontes para a gente criar um caminho único. Eu não consigo fazer uma música nova pensando em rótulo, eu simplesmente vou trazendo novos sons que me prenderam, que captaram minha atenção, que bateram mais forte no meu coração.”
Yoga, pôr do sol e a democracia da cultura de graça
Um dos rituais mais esperados do festival é a aula de yoga que encerra cada dia de programação, embalada pelo pôr do sol característico do Planalto Central. Para Céu, a combinação não poderia fazer mais sentido. “Essa energia de fim de tarde é minha cara, acho que tem a ver com a minha música bastante”, disse ela, que se declara praticante de longa data. “Eu aprecio muito yoga, inclusive, para todos os yoguers, já pratiquei muito yoga, prático e vou ficar muito feliz que essa energia esteja pairando no ar.”
A gratuidade do evento também toca um ponto sensível para a artista, que enxerga nesse tipo de iniciativa uma função quase social. “Eventos gratuitos, ao ar livre, eu atribuo isso como necessidade mesmo do nosso patrimônio cultural, espalhar cultura, dar acesso a todos”, afirmou. “É uma alegria imensa, democrática, me faz muito feliz o oxigênio no meu coração.”
Ao lado de Céu, o line-up reúne nomes que atravessam estilos e gerações, caso do BaianaSystem e sua energia de trio elétrico condensada, do pianista Amaro Freitas e seu jazz de raiz brasileira, e de Ju Strassacapa, que chega com a força de quem também transita entre o pop e a MPB. É uma curadoria que evita o óbvio e aposta na mistura, exatamente o tipo de programação que Céu diz preferir tocar. “Eu gosto muito de show hora livre, vai ser uma delícia tocar no Parque da Cidade, Brasil é sempre um público super quente, caloroso, receptivo, tô muito animada”, contou.

Mas o festival não vive só de palco grande. Reservada para as crianças, uma área inteira do evento vai funcionar como um parque de encantamento à parte, com contação de histórias e as aventuras do Mamulengo da Cia Jatobá. O Circo do Zé promete ocupar o espaço com oficinas e números circenses, enquanto as mega bolhas de sabão de Ju Marcondes devem roubar a cena entre os pequenos, e não só entre eles. Há ainda planetário móvel, oficina de cupcake e, no domingo, o cortejo do FestClown, que sai do Parque Ana Lídia rumo ao Estacionamento 11 arrastando quem estiver por perto para dentro da festa.
A recomendação para aproveitar tudo isso é a mais brasiliense possível: levar canga ou manta para o gramado, garrafa de água para enfrentar o ar seco e disposição de sobra para um final de semana em que a cidade, por uma vez, troca o silêncio do inverno pelo barulho bom da cultura ao ar livre.
Serviço
Festival de Inverno Sesc-DF 2026
Quando: 25 e 26 de julho de 2026 (sábado e domingo)
Onde: Estacionamento 11, Parque da Cidade – Brasília/DF
Atrações Musicais: BaianaSystem, Amaro Freitas, Céu, Ju Strassacapa e muito mais.
Atrações Infantis/Família: Cia Jatobá (Contação e Mamulengo), Circo do Zé, Oficinas Circenses, Bolha de Sabão (Ju Marcondes), Oficina de Cupcake (Carreta Genut), Planetário e Cortejo FestClown (domingo, 26/07, às 10h, saindo do Ana Lídia).
Entrada: Gratuita e livre para todos os públicos.
