A poucos quilômetros da região central de Brasília, em uma propriedade rural de pouco mais de três hectares localizada no Altiplano Leste, repleta de jardins floridos e estufas agrícolas, funciona uma experiência que une sensações e saberes. O local, que atualmente leva o nome de Quinta das Baunilhas, tem recebido, semanalmente, um público diverso interessado em sair da rotina imposta na área urbana para estabelecer contato com a natureza, degustar uma boa gastronomia e ainda descobrir os detalhes da história do único fruto comestível da família das orquídeas e a segunda especiaria mais cara do mundo: a baunilha.
A propriedade pertence à Ângela Maria Almeida, professora aposentada do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB), e foi completamente transformada desde sua aquisição, na segunda metade da década de 1990. À época, a docente – nascida e criada no interior de São Paulo – retornava ao Brasil após cinco anos no exterior e sentiu uma forte desconexão com suas raízes. Vinda de uma família com tradição rural, ela procurou por um pedaço de terra para reencontrar suas origens e restabelecer novos laços com o território brasileiro.
Mas, quando Ângela adquiriu a propriedade, o cenário que encontrou estava longe do ideal. “O solo estava totalmente degradado, porque os antigos proprietários colocavam fogo todos os anos. Não havia árvores. O solo era composto apenas por capim puro, áreas com cinzas das queimadas e pedregulhos”, recorda.
Diante daquele cenário, Ângela e sua família iniciaram um projeto de recuperação da área e, em um período de menos de dez anos, plantaram mais de 20 mil mudas nativas do Cerrado no terreno. “Já se passaram 30 anos e nunca mais houve uma queimada na propriedade. Construímos uma cortina verde”, acrescenta.
A aquisição e a transformação da chácara, no entanto, não significaram uma mudança repentina no estilo de vida de Ângela e sua família. Durante 18 anos, período em que exerceu o cargo de professora e orientadora na UnB, ela fixou residência no conjunto habitacional localizado na SQN 810 do Campus Darcy Ribeiro, na Asa Norte, mais conhecido como a Colina. Em meio a esse período, no entanto, ela acompanhava de longe o crescimento das plantas e árvores, além de promover outras benfeitorias na pequena propriedade.
A mudança de Ângela para o campo se concretizou em 2015, após a aposentadoria. Aquele momento não apenas marcou o fim de uma carreira acadêmica de sucesso, mas também deu início a uma nova busca por propósito. Após experimentar atividades como cultivo de hortas, bordado e criação de animais, como galinhas, Ângela encontrou, em 2019, no cultivo de baunilhas uma oportunidade de preencher um vazio deixado pela rotina ativa da universidade.
O primeiro contato com informações sobre a planta ocorreu apenas em 2019, por meio do trabalho de um técnico da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal (Emater/DF), que a convidou a integrar um grupo de produtores de baunilha que estava sendo formado no DF.
A princípio, eram poucos participantes. Além disso, as primeiras atividades do projeto coincidiram com as limitações impostas em decorrência da pandemia de covid-19, período que serviu para que a ex-docente pudesse pesquisar as variedades existentes de baunilhas.
Todo esse aprofundamento ganhou uma nova dimensão quando Ângela participou, em 2024, de um congresso científico sobre baunilhas na Ilha da Reunião, um território francês no Oceano Índico, a leste de Madagascar. Durante o evento, ela encontrou o impulso necessário para iniciar o cultivo da planta em sua propriedade e ampliou sua compreensão histórica sobre a baunilha, incluindo a técnica de polinização manual que possibilitou a produção em escala e a disseminação internacional da planta. Durante a viagem ela também adquiriu mudas diversas da planta para serem cultivadas em sua propriedade.
De volta ao Brasil, Ângela percebeu que o cultivo da baunilha poderia ir além da produção agrícola. O problema era o custo. Como professora aposentada, ela sabia que não teria capital suficiente para ampliar a plantação sem criar uma fonte de renda complementar. Foi nesse ponto que o Sebrae no Distrito Federal entrou em cena e, segundo ela, foi fundamental.

“Eu já recebia pessoas em minha propriedade para falar sobre o cultivo da planta e trocar informações. Mas fazia isso de uma maneira informal, sem retorno financeiro. O Sebrae me acolheu muito bem. Os gestores e consultores foram excepcionais e me deram a coragem. Eu já tinha a ideia em mente, mas foi essa parceria que me deu a segurança necessária para transformar o projeto em um empreendimento real”, conta Ângela.
Com as orientações recebidas graças ao apoio do Sebrae, a produtora formatou o Café com Baunilhas, uma experiência que equilibra teoria e prática. No percurso pela propriedade, Ângela detalha as metodologias de manejo, esclarece por que as espécies exóticas ocupam estufas e explica a razão pela qual as baunilhas brasileiras são cultivadas em sistema agroflorestal, integradas à vegetação local. “É o momento em que falo sobre a questão ecológica, a necessidade de preservar o meio ambiente e de nos vermos como parte da natureza. O visitante, ao final, não sai daqui apenas com informações sobre baunilhas, mas leva consigo uma nova visão de mundo”, assegura.
O trajeto termina na varanda da casa da propriedade, onde é servido um brunch, um dos pontos altos da experiência, segundo a produtora. Nesse espaço, os visitantes compreendem que o investimento realizado para estarem presentes na propriedade é totalmente reinvestido na manutenção do cultivo das baunilhas e na preservação da natureza. “Todo visitante é um coparticipante do projeto. Cada pessoa vem até aqui e deixa um tijolinho na construção desse trabalho”, afirma Ângela.
A produtora ainda explica que o cultivo das baunilhas é feito com o uso de substrato, uma mistura de materiais orgânicos e minerais utilizada para substituir a terra comum e que ainda funciona como suporte para fixar as raízes e fornecer as condições físicas e nutricionais ideais para as plantas.

No caso de Ângela, ela costuma utilizar cascas de coco trituradas, além de galhos e folhas da própria chácara para compor o substrato.
Uma parceria com a ONG Carbono Zero viabiliza o recebimento de 1,5 tonelada de resíduos de coco do Hotel Royal Tulip Brasília Alvorada a cada dez dias. Esse material passa por trituração e por tratamento para remoção de taninos antes de ser incorporado aos canteiros, reduzindo, assim, os custos e promovendo o aproveitamento de resíduos.
Em apenas dois anos, a propriedade de Ângela já recebeu mais de 2 mil pessoas e está consolidada como uma vitrine viva do potencial da baunilha brasileira.
Os interessados em vivenciar a experiência na Quinta das Baunilhas devem acessar o site para fazer o agendamento. Os visitantes também podem participar de oficinas, além de adquirir produtos como favas, extratos, caldas, pastas, açúcares e licores produzidos no local.
O serviço também conta com atendimento acessível em inglês, espanhol, francês e Libras, mediante agendamento.
A analista da Gerência de Negócios em Rede do Sebrae no DF, Laíse Cabral, celebra o sucesso da operação da Quinta das Baunilhas, que não é apenas um espaço de cultivo, mas também um modelo de como o turismo pode se unir à produção agrícola para criar experiências memoráveis. “A Quinta das Baunilhas é, sobretudo, um exemplo de como a produção associada ao turismo transforma ativos do território em experiências autênticas, aliando conservação ambiental, educação e valorização da baunilha brasileira”, ressalta.
“Por esse potencial, a experiência de Ângela integra o guia Made in Quadrado, iniciativa do Sebrae no DF que reúne empreendimentos comprometidos em oferecer vivências autênticas e conectadas à identidade do Distrito Federal, fortalecendo o turismo de experiência e o desenvolvimento sustentável do território”, conclui a analista.
Créditos das Notícias Sebrae DF
