Sem samba e com murga, Buenos Aires também tem blocos de rua no Carnaval

DOUGLAS GAVRAS
FOLHAPRESS

Crianças fantasiadas com chapéus giram roupas multicoloridas, enquanto adultos com apitos e tambores fazem uma coreografia calculada o suficiente para parecer espontânea.

Sem samba e longe da fama das festas de rua nas cidades brasileiras, Buenos Aires se entrega à murga no Carnaval.

Os “corsos” (desfiles) estão espalhados por toda a cidade, de bairros ricos a outros mais periféricos, sendo os de Boedo e os dos parques Chacabuco e Lezama alguns dos mais disputados pelos foliões.

A murga é uma combinação de dança, percussão e canções, que expressa tanto uma forma de arte de rua quanto um modo de crítica social.

O Carnaval portenho reforça a identidade local como uma bandeira e convoca a celebração de uma das tradições culturais mais representativas do rio da Prata.

“Certo, você não vai ver uma coisa parecida com o Carnaval do Rio de Janeiro, mas é um espetáculo lindo e que representa a nossa cultura, temos muito orgulho”, conta a professora Evelyn Castro, 33, moradora do Parque Saavedra.

As murgas portenhas não obedecem à lógica teatral elaborada das apresentações mais conhecidas, as do Uruguai, mas seguem a tradição de serem espetáculos com ampla participação da comunidade.

Os grupos carregam o orgulho e a identidade de diferentes bairros da capital da Argentina —há os Caprichosos de Mataderos (símbolos do antigo bairro que concentrava locais de abate de gado), enquanto o agitado bairro de Palermo hospeda os Atrevidos por Costumbre.

Como acontece com algumas agremiações do Brasil, a murga Los Amantes de La Boca tem uma relação estreita com o futebol, carrega as cores azul e amarela do clube Boca Juniors e é um dos maiores grupos, com mais de 150 componentes.

Os Relegados de Belgrano se destacam pelas encenações de palco que mudam a cada temporada —para este ano, o tema é a saúde pública.

Sob o nome de uma região conhecida pelos turistas brasileiros, os Caprichosos de San Telmo fazem uma abordagem crítica dos incêndios na Patagônia.

O Carnaval portenho tem história. Em 1869, Buenos Aires realizou seu primeiro desfile oficial, com a participação de grupos de candombe platense formados principalmente pela comunidade afro-argentina.

Eles atraíram a atenção do público com figurinos e máscaras.

No século 20, imigrantes italianos e espanhóis transformaram o Carnaval ao misturar ritmos, danças e trajes de suas culturas. As trupes de candombe deram lugar às murgas, que começaram a se apresentar pelos bairros.

A migração para Buenos Aires aumentou a popularidade das murgas na cidade, entretanto, a partir de 1976, durante a ditadura cívico-militar, o Carnaval foi retirado do calendário oficial, e as festas de rua pararam, levando à sua invisibilidade.

Após o retorno da democracia, em 1983, a festa voltou a crescer e recuperou espaço público até que, em 2010, entrou novamente no calendário. Com o tempo, os grupos de murga foram se reorganizando e novas agrupações surgiram.

Apaixonado pelo Brasil, o artista circense e componente de uma murga Anibal Avila, 42, defende que mais brasileiros conheçam a festa em Buenos Aires. Sua história pessoal daria um tema de bloco: foi em um Carnaval que o malabarista que desfila com os Arrabaleros Del Dios Momo conheceu sua mulher, Julieta, com quem tem dois filhos.

“Para mim, a murga é um estilo de vida, uma ferramenta de transformação social que nos permite escapar momentaneamente da realidade e desfrutar da alegria que o Carnaval transmite, fomentando um senso de luta nas ruas contra os diversos problemas.”

A festa de rua em Buenos Aires começa tarde, por volta das 18h, e vai até 1h da madrugada. Durante as noites de Carnaval, os grupos são avaliados por suas canções, apresentações, figurinos, coreografias, ritmos e número de artistas.

As murgas terão seu desfile principal na noite desta segunda-feira (16), no autódromo Oscar e Juan Gálvez (na zona sul), e ainda há programação prevista em diversos pontos da cidade, sempre aos sábados e domingos, até o dia 1º de março.

O Carnaval mais famoso da Argentina, no entanto, acontece em Gualeguaychú (a 240 km de Buenos Aires), onde há desfiles com carros alegóricos, passistas e destaques que atravessam o Corsódromo

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