Folia na contramão da história e da avenida

Na contramão da via W3, rumo à Esplanada, estavam os foliões do bloco Pacotão em plena terça-feira de Carnaval. A tradição e a sátira política já são a marca registrada de um dos mais emblemáticos blocos de Brasília, que movimentou a Asa Norte com marchinhas carnavalescas, fantasias criativas e uma celebração à liberdade de expressão.

A programação da folia no DF contou com esse bloco clássico, que já tem 48 anos de história nas ruas de Brasília. O Pacotão reafirma seu papel como cronista da capital por meio da sátira. Ao JBr, Josiblack, o coordenador do grupo, destacou que a trajetória do bloco, que está sempre na contramão, faz referência à política nacional e à importância da democracia. “Está sendo uma contramão da história. É uma expectativa muito grande a cada ano”, afirmou.

Foto: Amanda Karolyne/Jornal de Brasília

Segundo ele, o bloco busca transformar os acontecimentos do país em alegria, unindo a irreverência das marchinhas ao registro histórico: “A gente mistura toda a questão que tem na polícia, na segurança, todos os acontecimentos históricos para contar o tempo do Brasil”. O cortejo tradicionalmente desafia o trânsito da cidade, defendendo a democracia e a liberdade de expressão. “O Pacotão vai na contramão da W3 Norte. Agora mudou o trajeto, ele desce pelo Eixo Monumental, sempre no sentido contrário”, explicou.

Para Josiblack, o desfile atual celebra o funcionamento das instituições e aponta para o novo momento político do país: “É a nova democracia que está funcionando”, pontuou. Ele frisou que o bloco permanece como um espaço de manifestação essencial para a cultura brasiliense. A marchinha desta edição comenta brevemente sobre Donald Trump, a política brasileira e os escândalos recentes.

Criatividade na avenida

O cortejo pode ser no sentido contrário da via, mas a criatividade se faz presente na pista como em todo bloquinho. No Pacotão, muita crítica social permeou os looks, com manifestações em cartazes que lembravam de pautas importantes, como o fim da Escala 6×1.

Também teve espaço para fantasias mais lúdicas, como a da professora Suelen Martins, 39 anos, que estreou no cortejo este ano e não escondeu a animação com a experiência. “Eu amo o Carnaval. É a minha primeira vez no Pacotão e tenho certeza que vai ser a primeira de muitas, porque achei muito legal”, afirmou.

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Suelen Martins vestida de arara. – Foto: Amanda Karolyne/Jornal de Brasília

Suelen é apaixonada pelo feriado da folia e sempre frequenta os bloquinhos brasilienses, apesar de ser nova no Pacotão. Ela ama se produzir para o Carnaval e este ano não foi diferente: “Meus alunos disseram que eu sou um papagaio, mas na verdade estou vestida de arara-vermelha desta vez”, comentou. Ela finalizou com a esperança de que a cada ano a festa cresça no DF e que o respeito permaneça nas ruas: “Não é não. Neste bloco me senti muito segura, tem água e tem sombra. Tem sol também, mas é isto.”

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Milena Monte Alto e seus amigos no bloco Pacotão. – Foto: Amanda Karolyne/Jornal de Brasília

A estudante de Relações Internacionais, Milena Montealto, de 21 anos, também estava estreando no Pacotão e no Carnaval de Brasília. Natural de Goiânia, ela veio visitar os amigos e aproveitou para conhecer a festa brasiliense. “Estou achando massa, muito legal. É mais legal que o de Goiânia”, confessou. Vestida de animadora de torcida, Milena destacou a curiosidade sobre o trajeto icônico do grupo: “É a primeira vez que viemos em um bloco de rua assim. A gente estava no bloco que está acontecendo no Eixo Monumental nos outros dias e agora estamos aqui na contramão”, relatou.

Prestes a começar a faculdade de jornalismo da Universidade de Brasília (UnB), Marina Góes, de 18 anos, também escolheu o Pacotão para sua estreia no Carnaval de rua. Com uma fantasia inspirada nos “protestos do Roblox” – uma brincadeira com referencias as manifestações dentro da plataforma de jogos que viraram meme nacional  —, Marina uniu o humor da internet ao espírito crítico do bloco. “Eu gosto de carnaval e estou gostando muito da experiência. É a minha primeira vez aqui e vim com a família”, contou. Ela celebrou a aprovação na universidade em meio à folia.

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Marina Goés vestida com fantasia em referência ao roblox. – Foto: Amanda Karolyne/Jornal de Brasília

Outra foliã que estava produzida e com muito espírito de folia era a jornalista Márcia Araújo, de 40 anos. Ela e a família são presença confirmada no cortejo e Márcia ressalta que o bloco é um espaço para todas as gerações. “Todo ano estou no Pacotão, sempre com a família toda. É o momento de libertar a nossa criança interior e se divertir sem problemas”, contou.

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Márcia Araújo vestida de kung fu panda e seu marido. – Foto: Amanda Karolyne/Jornal de Brasília

Conhecida por suas fantasias criativas, ela já foi ao Pacotão vestida com temas como Pac-Man e lagartixa, mas este ano Márcia escolheu o personagem Kung Fu Panda para o Carnaval e celebrou a diversidade da programação da capital: “Estive no Bloco das Montadas, que estava incrível, e agora sigo aqui na alegria da contramão do Pacotão. O importante é ser feliz na avenida”.

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