A história da culinária é, em sua essência, feminina. Durante séculos, as mulheres foram as responsáveis pelo preparo dos alimentos e pelo uso dos temperos, costume que preservou as culturas nos ambientes domésticos. No entanto, a sociedade assistiu a uma mudança quando a cozinha deixou de ser uma tarefa do lar para se tornar uma profissão de prestígio e alta gastronomia: o cenário passou a ser dominado por homens. Nos dias atuais, já é possível observar um movimento de retomada, acompanhado de ampla profissionalização. Essa tendência busca recuperar o espaço e a participação feminina, desta vez sob a ótica da gestão, do empreendedorismo e da sustentabilidade.
Com o objetivo de fortalecer o debate sobre a liderança feminina no setor de alimentos e bebidas, o Sebrae no Distrito Federal promoveu o Encontro Mulheres que Alimentam o Futuro. O evento, realizado durante a programação do Movimente 2026, buscou conectar a produção local diretamente à gastronomia, apresentando soluções estratégicas para ampliar o acesso das mulheres aos mercados de consumo e distribuição. As discussões mostraram que os obstáculos encontrados pelas profissionais da área reproduzem estruturas de mercado observadas em outros segmentos econômicos, exigindo estratégias específicas para a ocupação de novos espaços.
Diná Ferraz, diretora técnica do Sebrae no DF, abriu a atividade mencionando que a jornada envolve, entre muitas coisas, transformar a produtora em empreendedora, uma mudança que exige autonomia e técnica para abrir um negócio que sobreviva ao atual mercado competitivo. “Essa transição exige autonomia e domínio técnico, elementos fundamentais para que o negócio não apenas nasça, mas sobreviva e cresça em um mercado altamente competitivo. É para isso que o Sebrae existe e está de portas abertas”, afirmou a dirigente.
A primeira personalidade a falar sobre o assunto foi Júlia Almeida, eleita Chef Revelação 2025 pela Veja Comer & Beber. Reconhecida dentro e fora da capital, a profissional assina cardápios para diversos bares e restaurantes, além de atuar como consultora para empreendedores do setor. Em sua cozinha, Júlia prioriza o fortalecimento da cultura do Cerrado e o uso de produtos orgânicos fornecidos, preferencialmente, por pequenos produtores locais. “Sempre vi o ato de cozinhar como o momento perfeito para criar e fortalecer elos”, afirmou durante a palestra.
Em seguida, o público presente ao encontro pôde conferir um debate que contou com a participação de Nayhara Branquinho, chef e proprietária do restaurante Pretensiosamente Modesto; Mariana Valle, produtora de orgânicos; e Giovana Navarro, empresária do setor de caprinocultura. O grupo convergiu para uma meta comum: a ampliação de redes de fomento protagonizadas por mulheres no setor.
Entre os principais obstáculos apontados no painel, estão o acesso ao crédito. Embora a gestão feminina apresente índices de eficiência, o levantamento de capital para formalizar e estruturar negócios ainda enfrenta barreiras financeiras. A estratégia para alterar esse cenário baseia-se em quatro pilares: capacitação, estruturação, formalização e conexão de mercado.
Para Giovana Navarro, a composição de uma equipe majoritariamente feminina define a dinâmica da operação. “A contratação de mulheres é uma ferramenta para enfrentar a competitividade do mercado. Esse impulso ocorre por meio da oferta de cargos, do suporte ao desempenho e da viabilização de treinamentos”, pontuou.
Mariana Valle, oriunda de uma família de horticultores, coordena a área de marketing da propriedade iniciada por sua mãe e falou sobre como a trajetória familiar fundamentou o estabelecimento e a expansão da empresa no mercado de orgânicos local.
Para as painelistas, o êxito no setor depende da união entre iniciativa e gestão profissional. As três empreendedoras foram enfáticas ao concluir que a atuação feminina deve superar a visão do talento natural para se consolidar em estruturas de apoio técnico e financeiro. A proposta final do grupo defende a retomada das raízes femininas na gastronomia, estendendo o comando das mulheres para além do preparo dos alimentos: o foco agora está no controle das planilhas, na chefia das cozinhas e nas decisões políticas que moldam a produção e o consumo.
Créditos das Notícias Sebrae DF
