De Luziânia à China: estudante integra missão sobre Inteligência Artificial

Por Cintia Ferreira

Enquanto a Inteligência Artificial transforma governos, empresas e mercados ao redor do mundo, um estudante do Entorno do Distrito Federal vive uma experiência que poucos brasileiros tiveram a oportunidade de conhecer de perto. Gabriel Eduardo, gestor público e estudante de Inteligência Artificial Aplicada à Gestão Pública da Universidade Federal de Goiás (UFG), participa atualmente de uma missão internacional na China voltada ao intercâmbio de conhecimentos sobre inovação, tecnologia e desenvolvimento.

Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção Entorno, Gabriel contou como sua trajetória profissional o levou ao universo da Inteligência Artificial, falou sobre os desafios e aprendizados vividos em um dos países mais avançados tecnologicamente do planeta e defendeu que jovens negros, estudantes da rede pública e moradores das periferias sejam protagonistas da nova revolução tecnológica.

Ao contrário do que muitos imaginam, sua aproximação com a Inteligência Artificial não surgiu dentro de laboratórios de tecnologia. O interesse nasceu durante anos de atuação na gestão pública.

Formado em Gestão Pública, Gabriel trabalhou como assessor parlamentar na Câmara dos Deputados e também ocupou cargos na administração municipal. Foi nesse período que começou a perceber o potencial da tecnologia para solucionar problemas históricos enfrentados pelo poder público. “Sempre trabalhei com políticas públicas e passei a perceber que muitos dos desafios que enfrentamos nos governos, desde mobilidade urbana até saúde, educação e planejamento territorial, podem ser enfrentados de forma mais eficiente com o uso de dados e tecnologia”, relata.

A oportunidade de aprofundar esse conhecimento surgiu quando ingressou no curso de Inteligência Artificial Aplicada à Gestão Pública da Universidade Federal de Goiás, oferecido no campus da Cidade Ocidental. Apesar da ligação crescente com o setor tecnológico, Gabriel afirma que nunca imaginou que os estudos o levariam até o outro lado do mundo. “Quando surgiu a oportunidade de cursar Inteligência Artificial Aplicada à Gestão Pública na UFG, eu enxerguei uma chance de conectar minha experiência prática com as transformações tecnológicas que estão acontecendo no mundo. Mas nunca planejei ou imaginei que isso me levaria até a China”, conta empolgado à 17 mil km de distância de sua residência.

Segundo ele, a experiência internacional foi resultado de uma sequência de escolhas e oportunidades que apareceram ao longo da caminhada. “Não houve um momento exato em que pensei: vou parar para estudar do outro lado do mundo por causa disso. O que aconteceu foi uma sequência de oportunidades, algumas que nem pareciam oportunidades, mas que fui abraçando ao longo do caminho pelo compromisso de tentar mudar realidades de pessoas ao meu redor e de locais parecidos com o que eu vivo. Hoje percebo que estudar, me qualificar e permanecer aberto ao aprendizado foi o que me trouxe até aqui”, acrescenta.

Gabriel em frente a sede da Ningbo Polytechnic University (NBPU), renomada instituição pública de ensino superior e técnico. Foto: Reprodução

A tecnologia presente em todos os aspectos da vida

Ao desembarcar na China, Gabriel encontrou uma realidade que o impressionou pela velocidade e pelo nível de integração tecnológica existente no cotidiano da população. Considerado um dos maiores polos mundiais de Inteligência Artificial e inovação, o país asiático utiliza tecnologias avançadas em praticamente todos os setores da sociedade, algo que chamou a atenção do estudante brasileiro logo nos primeiros dias. “O que mais me impressionou foi perceber como a tecnologia está integrada à vida cotidiana das pessoas. Não é algo preso só dentro das grandes empresas, das universidades ou dos laboratórios. Ela está presente nos meios de transporte, na cultura, nos pagamentos, na logística, nos serviços públicos e na própria organização das cidades e dos governos.”

Para Gabriel, outro aspecto marcante é a rapidez com que os chineses conseguem transformar conhecimento científico em soluções práticas. “Também me chamou atenção a velocidade com que eles conseguem transformar conhecimento em soluções concretas. Muitas vezes debatemos tecnologia de forma teórica, enquanto aqui é possível observar sua aplicação prática em larga escala e muito rapidamente”, exemplifica.

Mesmo diante das diferenças culturais e da barreira linguística, ele avalia que a experiência tem sido enriquecedora. “A diferença cultural e a barreira do idioma existem, sem dúvida, mas também são uma oportunidade de aprendizado. Quando você sai da sua realidade, passa a enxergar o mundo de outra forma e entende que existem diferentes caminhos para enfrentar problemas parecidos com o que nós temos”, relata.

Tecnologia como ferramenta de inclusão social

A missão internacional integra o programa Caminhos do Sul Global, iniciativa apoiada pelo Ministério da Igualdade Racial que busca ampliar o acesso de jovens brasileiros a espaços estratégicos de formação e inovação. Para Gabriel, programas desse tipo representam muito mais do que oportunidades acadêmicas. Eles podem ser instrumentos concretos de combate às desigualdades. “Eu considero isso fundamental, necessário e defendo que os investimentos devem ser muito maiores. A revolução tecnológica que estamos vivendo vai influenciar profundamente o mercado de trabalho, os governos e a vida das pessoas nas próximas décadas. Nós não podemos perder o bonde da história”, salienta.

Na avaliação dele, o Brasil reúne condições para ocupar uma posição de destaque na chamada quarta revolução industrial, mas alerta que esse protagonismo depende da inclusão de grupos historicamente excluídos dos espaços de inovação. “O Brasil tem todos os requisitos para ser protagonista da quarta revolução industrial, mas se determinados grupos ficarem de fora desse processo, as desigualdades podem aumentar ainda mais”, avalia o estudante.

Gabriel defende que a democratização do acesso à tecnologia deve ser tratada como uma política estratégica de desenvolvimento nacional. “Democratizar o acesso à formação tecnológica é uma questão de desenvolvimento, mas também de justiça social. Precisamos garantir que jovens negros, estudantes de escolas públicas e moradores das periferias não sejam apenas consumidores de tecnologia ou de redes sociais, mas também produtores de conhecimento, inovação e soluções para os desafios do país.”

O que a China pode ensinar ao Brasil

Durante as atividades realizadas junto a instituições chinesas, Gabriel teve contato com projetos e experiências voltadas ao uso de Inteligência Artificial na administração pública, no planejamento urbano e na gestão de grandes cidades.

Segundo ele, uma das principais descobertas foi compreender que a Inteligência Artificial vai muito além das ferramentas populares que ganharam notoriedade nos últimos anos. “O principal aprendizado tem sido compreender que a Inteligência Artificial não é apenas uma ferramenta tecnológica e não se resume somente ao ChatGPT. Ela pode ser uma grande aliada para gestão eficiente, planejamento inteligente e tomada de decisão correta e eficaz”, destaca.

Entre as áreas que mais despertaram seu interesse estão as aplicações voltadas à gestão urbana. “Tenho me interessado especialmente pelas aplicações voltadas à gestão urbana, à logística e ao planejamento de cidades. Ver como grandes volumes de dados são utilizados para melhorar serviços de saúde, educação, mobilidade urbana, otimizar recursos e apoiar decisões estratégicas mostra um enorme potencial para países como o Brasil.”

Para ele, o maior diferencial observado na experiência chinesa está na capacidade de integrar diferentes áreas do desenvolvimento. “Mais do que uma tecnologia específica, o que me chama atenção é a capacidade de pensar o desenvolvimento de forma integrada, conectando inovação, educação, indústria e planejamento de longo prazo.”

Por fim, ele destaca que nenhuma conquista acontece de forma isolada e que cada oportunidade recebida traz consigo a responsabilidade de retribuir à comunidade. “Ninguém chega sozinho. Sempre existe uma família, uma comunidade, professores, políticas públicas e pessoas que ajudam a abrir caminhos. Quando uma oportunidade aparecer, esteja preparado para aproveitá-la e, principalmente, nunca esquecer das suas origens”, completa.

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