Um cabeleireiro de Águas Lindas de Goiás denuncia maus-tratos e negligência contra o cachorro dele durante internação em uma clínica veterinária da cidade. Segundo Michael Soares, tutor do animal, o cão teria passado a noite sozinho, ao chegar ao estabelecimento, encontrou o animal sujo de fezes, com o nariz obstruído, secreção nos olhos e sem atendimento adequado. Após o episódio, uma segunda cliente relatou a morte de um shih-tzu no mesmo estabelecimento, em janeiro de 2026.
Michael é casado e vive com o companheiro e três cachorros. Um deles, Snow, um pitbull de um ano e meio de idade, começou a apresentar vômitos e apatia. “Ele sempre foi muito agitado. Quando vimos que não conseguia levantar direito, percebemos que tinha algo errado”, conta.
Sem condições financeiras de procurar vários profissionais, o casal buscou na internet o primeiro atendimento disponível e entrou em contato com a clínica. A veterinária responsável não compareceu à residência, mas enviou um funcionário que recomendou a internação imediata do animal, sob alegação de desidratação grave.
O cachorro foi levado para a clínica com a promessa de acompanhamento 24 horas e realização de exames para investigar a causa dos sintomas. Segundo o tutor, no entanto, o exame de ultrassonografia não foi feito, e o raio-x indicado como alternativa foi adiado para a segunda-feira seguinte, porém sem êxito.
Ainda de acordo com Michael, na noite da internação ele tentou obter informações sobre o estado de saúde do animal, mas só recebeu resposta depois de 2 horas, por volta das 23h. Desconfiado, decidiu ir até a clínica na manhã seguinte. “Chegamos cedo e a clínica estava toda fechada, sem movimentação. A secretária veio de pijama, da casa dela, com a maquininha de cartão na mão. Não deixaram a gente entrar”, relata.
O tutor afirma que só conseguiu acesso ao interior da clínica após procurar a delegacia e insistir na liberação. Ao entrar, encontrou Snow em estado crítico. “Ele estava coberto de fezes, com o nariz obstruído, sem conseguir respirar direito”, diz.
Desesperado, o casal decidiu retirar o cachorro e levá-lo imediatamente a outra clínica veterinária. No novo atendimento, segundo Michael, o animal foi limpo e estabilizado. Exames teriam confirmado doença do carrapato. “No dia seguinte, ele já estava em pé, tomando água. Teve uma evolução bem rápida devido ao cuidado adequado”, afirma.
O caso não terminou aí. Dois dias depois, a veterinária denunciada teria ido até o local de trabalho do marido de Michael e relatado ao gerente que o casal teria feito ameaças. “Ela expôs nossa vida pessoal e disse que a gente tinha falado que faria ‘macumba’ contra ela. Foi um constrangimento enorme”, conta.
Michael afirma que, após o episódio, precisou retomar tratamento psiquiátrico para controlar crises de ansiedade. Ele e o companheiro procuraram advogados e dizem que pretendem mover ações por danos morais e calúnia.
Caso parecido
Em janeiro de 2026, uma nova denúncia envolvendo a mesma clínica veio à tona. Segundo relato de outra cliente, um cachorro da raça shih-tzu morreu após atendimento no local. O caso reforçou a decisão de Michael de tornar pública a situação. “Se eu tivesse conseguido ajuda antes, talvez outra pessoa não teria passado por isso. Meu cachorro não fala, então eu falo por ele”, diz.
Imagens registradas no local mostram momentos de tensão e tumulto em frente à clínica veterinária. As tutoras de uma cachorrinha que estava internada tentam entrar no estabelecimento para obter informações sobre o estado de saúde do animal, mas são impedidas pela médica responsável. A profissional chega a baixar a porta do estabelecimento, o que provoca revolta e protestos por parte das mulheres.
Durante a confusão, a veterinária tenta deixar o local em um carro, mas é cercada pelo grupo, que, aos gritos, afirma não ter sequer a confirmação de que a cadela estaria viva. “Eu entrei para deixar a minha cachorra, eu vou entrar para pegar ela. Para deixar meu dinheiro aí dentro você deixou”, declarou uma das tutoras, exigindo acesso à clínica.
De acordo com o Boletim de Ocorrência, o animal foi levado à clínica no sábado (24/1) apresentando tremores, olhos avermelhados e salivação excessiva. Segundo relato das tutoras, a veterinária informou que a cadela precisaria permanecer internada por quatro dias para tratar uma infecção considerada grave, sob risco de morte caso não recebesse atendimento adequado. Após efetuarem o pagamento pelo tratamento, elas autorizaram a internação.
Ainda no mesmo dia, no entanto, uma das tutoras decidiu retornar à clínica com a intenção de retirar a cadela, após tomar conhecimento de avaliações negativas publicadas por outros clientes. Em alguns comentários, a proprietária do estabelecimento era acusada de priorizar interesses financeiros em detrimento do bem-estar dos animais. As críticas, segundo apurado, foram respondidas pela médica.
Na terça-feira (27/1), as tutoras procuraram a delegacia de Águas Lindas para registrar ocorrência. Uma delas relatou ter se ferido ao cair de um veículo em movimento durante a confusão. A Polícia Civil esteve na clínica e constatou a morte da cachorrinha. O caso deverá ser investigado para apurar as circunstâncias do ocorrido.
O que diz a defesa
A reportagem do Jornal Opção Entorno procurou a médica-veterinária e responsável pela clínica, Nayara Rodrigues, porém, não quis dar declarações por telefone. No mesmo dia, conversamos com a advogada Isabella Spindola, que respondeu por meio de nota.
A Dra. Nayara, médica-veterinária responsável técnica pela Clínica Vet Raabe, por intermédio de sua assessoria jurídica, vem a público prestar esclarecimentos formais acerca das informações divulgadas sobre atendimento realizado em suas dependências, diante de alegações que não correspondem à realidade clínica devidamente documentada.
O animal foi admitido para internação em 02 de agosto de 2025 em estado clínico de extrema gravidade, apresentando desidratação severa, hipotermia, inapetência, sinais neurológicos e comprometimento sistêmico relevante. Exames laboratoriais confirmaram diagnóstico de erliquiose em estágio avançado, além de alterações críticas nos níveis de ureia e creatinina, indicativas de importante disfunção orgânica.
Ressalta-se que o paciente era portador de doença renal crônica, condição de base que agrava significativamente o prognóstico, reduz a capacidade fisiológica de resposta terapêutica e exige manejo clínico intensivo com monitoramento contínuo. Desde a admissão, o animal recebeu
assistência clínica integral, suporte intensivo e todas as intervenções terapêuticas indicadas para preservação da vida, com monitoramento permanente e registros em prontuário.
Durante todo o período de internação, o paciente recebeu cuidados contínuos de suporte clínico, incluindo administração de medicações, alimentação assistida, higienização periódica e
manejo compatível com sua condição debilitada. Tais cuidados encontram-se registrados e documentados, inclusive por meio de registros audiovisuais que demonstram o acompanhamento clínico direto, a alimentação assistida e os procedimentos de limpeza e conforto realizados pela equipe veterinária.
A clínica esclarece que, havendo pacientes internados, mantém médico-veterinário plantonista durante todo o período de internação, assegurando acompanhamento profissional contínuo e ininterrupto, inexistindo qualquer período sem supervisão técnica. Os protocolos institucionais de visitação seguem critérios organizacionais e assistenciais. Aos domingos, a clínica permanece fechada para visitas externas; contudo, a assistência médica aos animais internados
permanece integral, com monitoramento contínuo, administração de medicações e acompanhamento profissional permanente.
Todos os procedimentos realizados, medicações administradas, avaliações clínicas e evolução do quadro encontram-se devidamente documentados em registros médicos e exames. Embora o tutor tenha relatado sintomas de apenas uma semana, o estágio avançado das lesões e a degradação clínica indicam que o animal sofria de uma enfermidade prolongada e não tratada
adequadamente antes da chegada à clínica. Durante a internação, o animal apresentou vômitos e diarreia com sangue (hematêmese e hematoquezia), sintomas inerentes à gravidade da doença, e não por falta de zelo.
Em 04 de agosto de 2025, a continuidade da internação foi interrompida por decisão exclusiva do tutor, que solicitou a retirada do animal. Na ocasião, foi fornecido relatório clínico completo, encaminhamento médico formal e orientações terapêuticas, devidamente formalizados e assinados pelo responsável, assegurando a continuidade do tratamento em outro estabelecimento veterinário. Em razão da interrupção antecipada da internação por decisão do tutor, exames complementares previamente solicitados, incluindo exame ultrassonográfico, deixaram de ser realizados. Os valores correspondentes aos procedimentos não executados foram integralmente reembolsados ao responsável, conforme comprovantes financeiros devidamente registrados.
Entidade de classe
O Conselho Regional de Medicina Veterinária de Goiás informou que a veterinária está com o cadastro ativo e a clínica tem registro no CRMV-GO. Questionado sobre possíveis denúncias de maus-tratos de animais, o Conselho disse que sobre denúncias de processo ético correm em sigilo, então não pode ser divulgado.
