O Distrito Federal recebe, até domingo (15), o Festival Claudio Santoro, evento dedicado à difusão da obra do compositor e maestro Claudio Santoro (1919–1989), considerado um dos nomes mais importantes da música brasileira do século XX. A programação gratuita reúne concertos de orquestra, recitais de canto e piano, palestras e uma exposição, celebrando a trajetória do artista que teve papel central na formação da vida cultural de Brasília.
Realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do DF, o festival reúne intérpretes de destaque da cena musical brasileira, como o pianista e cravista Alessandro Santoro, filho do compositor e responsável por seu acervo, e a mezzo-soprano Denise de Freitas, vencedora do Prêmio APCA 2024. A proposta do evento é destacar diferentes fases e aspectos da produção de Santoro, aproximando o público da obra de um compositor cuja trajetória se entrelaça com a história cultural da capital federal.
A criação do festival também reflete a importância do compositor para a identidade cultural do Distrito Federal. “Santoro foi um dos mais importantes compositores brasileiros, além de regente e uma figura de projeção internacional, que representou a música do Brasil em diversos contextos no exterior”, afirma o maestro Matheus Avlis, diretor musical e artístico do evento.
Segundo Avlis, a iniciativa busca ampliar o contato do público com esse legado. “O festival busca não apenas divulgar e valorizar a obra de uma figura fundamental da nossa história musical, mas também fortalecer, junto à população do Distrito Federal, um sentimento de identidade cultural local, de pertencimento e de patrimônio compartilhado. É uma forma de aproximar as novas gerações dessa herança artística e de reafirmar que esse legado faz parte da história e da cultura do povo do DF.”
A relação de Santoro com Brasília é profunda. Maestro fundador da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional e do Departamento de Música da Universidade de Brasília (UnB), ele teve papel decisivo na formação de músicos e no desenvolvimento da vida musical da capital. Desde 1989, o Teatro Nacional leva o seu nome.
Para Avlis, essa presença histórica também marcou sua trajetória pessoal e profissional. “Ele sempre esteve aqui presente. Quando estudei na Escola de Música e na Universidade de Brasília, fui aluno de alunos de Santoro. Quando desde muito jovem ia aos concertos, era no Teatro Nacional Claudio Santoro. E em todas as vezes que regi a Orquestra do Teatro Nacional, fiz isso com o respeito de reger a orquestra sonhada e fundada por Santoro.”
Concertos e recitais destacam diferentes fases da obra
A programação musical do festival contempla apresentações orquestrais e recitais de música de câmara. No dia 14 de março, no Centro Cultural da AdUnB, às 20h, a Orquestra do Festival Claudio Santoro se apresenta sob regência de Matheus Avlis. Formado por músicos do Distrito Federal, o grupo interpreta obras da fase nacionalista do compositor, período em que Santoro buscou desenvolver uma linguagem musical ligada à cultura brasileira sem recorrer ao folclore de maneira literal.
Entre as obras apresentadas estão a Sinfonia nº 6 e Brasiliana, peças emblemáticas dessa fase criativa. Os concertos contam ainda com a participação da jovem soprano brasiliense Karina de Sousa, que recentemente foi convidada para integrar o Opera Studio de Weimar, na Alemanha.

“A gente vai apresentar dois recitais de música de câmara, um de canto e piano e um de piano solo, que ambos lidam com o repertório dessa época, no caso do repertório de canto e piano, são as canções de amor da parceria do Cláudio Santoro com Vinícius de Moraes, representante ali, poeta relacionado com a bossa nova, por exemplo. E no repertório de orquestra, a gente também toca peças dessa época nacionalista”, explica Avlis.
Hoje, sexta, às 20h, o Auditório da Casa Thomas Jefferson, na Asa Sul, recebe o recital “Canções de Amor — As Canções de Santoro e Vinicius de Moraes”, com Denise de Freitas (mezzo-soprano) e Alessandro Santoro (piano). A parceria entre o compositor e o poeta, estabelecida entre 1957 e 1960, resultou em algumas das obras mais conhecidas de Santoro. O concerto apresenta as Canções de Amor pela primeira vez em ordem cronológica, permitindo acompanhar a evolução de sua linguagem musical. A apresentação termina com uma homenagem à bailarina e professora Gisèle Santoro, esposa do compositor, falecida em outubro em Brasília aos 86 anos.
Para Alessandro Santoro, o encontro artístico com Denise de Freitas destaca a força interpretativa da cantora. “Ela [Denise], ao meu ver, possui as qualidades de um grande artista: controle da voz, força da interpretação e profundidade, e ainda tem compreensão da música do meu pai. Fico feliz que vamos apresentar esse concerto nesse Festival, que espero que se repita por muitos anos.”
A mezzo-soprano também ressalta sua ligação com o repertório do compositor. “É um privilégio enorme poder interpretar essa música tão sensível e ao mesmo tempo espetacular. Tenho uma relação de longa data com a obra de Santoro. Interpretei o papel protagonista de sua única ópera, Alma, e gravei sua Sinfonia nº 8 com a Filarmônica de Goiás.”
Estreias e reflexão sobre o legado
O festival também abre espaço para obras inéditas. No dia 15 de março, às 19h, novamente na Casa Thomas Jefferson, Alessandro Santoro apresenta o recital “Canções sem Palavras — Peças inéditas para piano”. O concerto marca a estreia mundial de composições reconstruídas a partir de manuscritos, rascunhos e esboços encontrados no acervo do compositor, revelando aspectos pouco conhecidos de sua produção.
Além das apresentações musicais, o evento inclui o Ciclo de Palestras “A Vida e Obra de Claudio Santoro”, realizado na manhã do dia 13 de março e transmitido pelo canal Ópera na Cidade, no YouTube. A proposta é aprofundar a reflexão sobre a trajetória e a importância do compositor para a música brasileira.
Serviço
Festival Claudio Santoro
Quando: até 15 de março
Onde: Complexo Cultural de Samambaia; Centro Cultural da AdUnB (Plano Piloto); Casa Thomas Jefferson (Asa Sul)
Entrada: gratuita
Ciclo de Palestras “A Vida e Obra de Claudio Santoro”
Quando: 13 de março (manhã)
Transmissão pelo canal Ópera na Cidade, no YouTube
Todas as atividades são gratuitas e abertas ao público.
Recital “Canções de Amor — As Canções de Santoro e Vinicius de Moraes”
Quando: 13 de março, às 20h
Onde: Auditório da Casa Thomas Jefferson — Asa Sul
Concerto da Orquestra do Festival Claudio Santoro
Quando: 14 de março, às 20h
Onde: Centro Cultural da AdUnB — Plano Piloto
Recital “Canções sem Palavras — Peças inéditas para piano”
Quando: 15 de março, às 19h
Onde: Casa Thomas Jefferson — Asa Sul
