Fofão de cara feia reforça a tradição do Carnaval de rua de São Luís, no Maranhão

ROBERTO DE OLIVEIRA
FOLHAPRESS

O calor pesa sobre as ruas do centro histórico da capital do Maranhão, apenas aliviado por uma brisa que vem do mar. Entre fachadas antigas e calçadas gastas, um grupo de foliões avança em cores vibrantes, ocupa o espaço com passos cadenciados e presença ruidosa. De tempos em tempos, alguém grita à distância “coisa feia”, como quem reage ao estranhamento que a cena provoca. Os fofões seguem em festa.

Integrados à lógica própria do Carnaval maranhense, caminham em cortejo, indiferentes a padrões estéticos. Aqui, a feiura não é falha: é linguagem, tradição e gesto performático. “Quanto mais horrorosa for a máscara, mais ela se encaixa no perfil do fofão”, explica Uimar Júnior, 67, apaixonado pelo personagem desde menino e hoje preocupado com o seu desaparecimento gradual do Carnaval de rua.

Guardião de memória e performer do próprio personagem, ele está entre os idealizadores do Blocão do Fofão, agremiação que tenta manter vivo esse tipo de figura ao levar às ruas de São Luís um cortejo com cerca de cem mascarados deliberadamente espalhafatosos. Júnior também dirige a galeria Trapiche, onde reúne um acervo de 40 fofões originais do Maranhão.

Os primeiros registros do fofão aparecem no fim do século 19 e no início do 20, diz o artista. A origem, no entanto, segue em disputa. E talvez seja justamente essa ambiguidade que ajude a sustentar o personagem.

Há quem aponte uma matriz africana. Outros preferem ler o fofão como parente distante dos bailes de máscara europeus, incorporados ao repertório local a partir da presença portuguesa. Também há associações com os tipos cômicos da commedia dell’arte e com os bufões e bobos da corte, os chamados “funcionários do riso”, artistas medievais pagos para divertir a realeza e autorizados a dizer o que ninguém mais dizia.

Repare, por exemplo, no nariz do fofão. Adunco, aquilino, ele desenha uma curva marcada no dorso e termina com a ponta voltada para baixo. Num atalho do mundo animal, lembra o bico de uma ave de rapina, uma águia talvez, e ajuda a construir o estranhamento que a máscara provoca.

Estamos no Maranhão, um dos caldeirões culturais e étnicos do país. Aqui, o sincretismo reúne influência indígena, marcas da colonização francesa e portuguesa e uma ancestralidade africana muito presente.

“Tudo isso se fundiu, gerando uma identidade única”, diz o artista. “Por isso, o nosso fofão é um ícone cultural que só se encontra aqui.” E completa: “Infelizmente, esse personagem está caindo no esquecimento”.

Embora ainda apareça em blocos carnavalescos da cidade e circule com força nas redes sociais, em vídeos nos quais crianças e adolescentes se fantasiam da figura, cresce entre foliões mais tradicionais a percepção de que é preciso preservá-lo e valorizá-lo como expressão popular que reúne o lúdico, o carnavalesco e o grotesco.

Nesse esforço de manutenção da tradição, a galeria Trapiche passou a oferecer à população cursos de confecção de máscaras de fofão. Dayana Roberta, mascareira, diz que uma peça leva, em média, uma semana para ficar pronta, antes das etapas finais de acabamento e pintura.

O fofão é uma careta alegre, uma caricatura, não uma figura de terror professora de teatro da UFMA (Universidade Federal do Maranhão).

A técnica usada é a papietagem, uma modelagem artesanal baseada na sobreposição de tiras de papel (jornal ou revista) umedecidas em cola sobre uma estrutura, até que o volume ganhe corpo e rigidez. No fim, entra a cabeleira: a peruca pode ser de helanquinha, sisal, juta ou ráfia.

“O fofão é uma careta alegre, uma caricatura, não uma figura de terror. A brincadeira de assustar, algo infantil, é uma das alegrias do nosso Carnaval”, conta Roberta, que também é professora de teatro da UFMA (Universidade Federal do Maranhão).

Para manter incógnita a identidade do brincante, os integrantes do bloco vestem macacões folgados, ultracoloridos, feitos de chita. Na gola e nas mangas, guizos: o barulho funciona como aviso, sinalizando a presença antes mesmo de a máscara aparecer.

Em uma das mãos, uma bonequinha de plástico, bem simples, quase sempre pelada. Na outra, uma varinha, instrumento de cena e, para quem acredita, recurso para afastar maus agouros. E que ninguém venha com “sai daqui, bicho feio”: no cortejo, o feio é parte da graça.

“Por isso, o fofão ganha dimensão clássica quando encontra o povo, no momento em que circula pelas ruas do centro, pelos becos das comunidades e pelas periferias maranhenses. É um personagem solto, que interage com o público”, afirma Júnior.

Em perspectiva histórica, o fofão também se impõe como um símbolo de resistência. Ao insistir na rua, os brincantes do Blocão e de outros grupos lembram que o Carnaval é, antes de tudo, uma festa do povo.

Na avenida Litorânea, no circuito Vem pro Mar, a festa tomou outra escala. Segundo os organizadores, ao longo dos cinco dias cerca de 4,5 milhões de foliões percorreram os 2 km do trajeto e ocuparam 13 camarotes erguidos dos dois lados da orla. Em trios elétricos, desfilaram artistas nacionais e regionais. A cidade viu passar, entre outros, Anitta, Claudia Leitte, Wesley Safadão e o DJ Alok.

Entre a máscara que provoca estranhamento e o trio que arrasta multidões, o Carnaval da capital maranhense se mostra plural: no corpo a corpo das ruas e becos, os fofões seguem soltos; à beira-mar, a multidão dança do jeito que quiser.

Os jornalistas viajaram a convite do governo do estado.

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