França devolve 3 crânios humanos a Madagascar em ato de reparação

A França restituiu três crânios humanos a Madagascar, exemplos da brutalidade colonial francesa no final do século 19, incluindo o que se presume ser o do rei Toera, último soberano independente do reino Sakalava do Menabe.
A cerimônia de restituição entre Estados aconteceu no Ministério da Cultura, em Paris, com a presença da ministra francesa Rachida Dati e de sua homóloga madagascarense Volamiranty-Donna Mara, além de Thani Mohamed-Soilihi, ministro delegado encarregado da Francofonia e das parcerias internacionais. São relíquias humanas de importância crucial para a memória histórica do Madagascar.
Os três crânios humanos pilhados pelos franceses estavam até então guardados nas reservas do Museu do Homem, uma seção do Museu de História Natural, de Paris. Um deles é atribuído ao rei Toera, e os outros dois a guerreiros mortos ao seu lado durante a conquista colonial do oeste de Madagascar, no final do século 19.
Trata-se de uma história particularmente violenta, já que o rei Toera, mesmo tendo aceitado depor as armas, foi morto e decapitado pelas tropas coloniais francesas durante o massacre de Ambiky, em 1897.
O historiador Jeannot Rasoloarison, professor de história contemporânea na Universidade de Antananarivo e especialista nas lutas anticoloniais em Madagascar, destacou à RFI:
“O que se busca com a restituição do crânio de Ampanjaka Toera e dos outros guerreiros sakalava é uma reparação tanto memorial quanto material pelos crimes cometidos pelos franceses durante a colonização. É um reconhecimento da existência das lutas anticoloniais.”
Identificação científica impossível
Foi necessário um longo trabalho antropológico e científico para viabilizar a restituição da suposta relíquia do rei Toera. O pedido de restituição foi feito inicialmente em 2003 por Madagascar, mas somente em 2018 foi iniciado um verdadeiro trabalho de pesquisa para localizar o crânio real. No entanto, a identificação científica formal e definitiva da relíquia não foi possível devido à qualidade do DNA da amostra.
Por isso, foi realizado um ritual tradicional específico em Madagascar: uma cerimônia na qual a alma do rei teria descido ao corpo de uma mulher em transe, que conseguiu identificar seu crânio por meio de uma fotografia.
“Devolução tem dimensões espirituais e identitárias”
Do lado francês, a lei sobre a restituição de restos humanos conservados em coleções públicas, em vigor desde junho de 2023, oferece um quadro jurídico simplificado para que essas relíquias possam ser devolvidas e enterradas com dignidade.
Além disso, durante sua visita a Antananarivo em abril, o presidente francês declarou que essa restituição permitiria “criar as condições para o perdão pelas páginas sangrentas e trágicas da história entre os dois países”.
Essa restituição é considerada um momento marcante do ponto de vista memorial, mas é sobretudo um episódio crucial na história do povo sakalava. Como explica o atual rei, Georges Harea Kamamy, à RFI:
“Para os Sakalava, o retorno do rei Toera representa duas dimensões essenciais: espiritual e identitária. Espiritual, porque restabelece o elo sagrado perdido na linhagem dos ancestrais. Esse elo desaparecido finalmente encontra seu lugar na cadeia do tempo. E identitária, porque o povo sakalava pode agora se reconectar com aquilo que constitui sua força: uma identidade forjada na rebelião digna.”
A chegada do crânio presumido do rei Toera está prevista para o dia 31 de agosto em Madagascar. A relíquia será então transportada até a cidade de Ambiky, onde passará por rituais funerários e memoriais, antes de ser depositada no túmulo real, reunindo-se ao corpo do rei e à sua linhagem.
Com informações de Liza Fabbian e do correspondente da RFI em Antanarivo, Guilhem Fabry.
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