Homenagem: livro traz receita de sobremesa favorita de Rubens Paiva

A saudade pode ter sabor e, para Loveane Dias, esse sabor é de pizza. A professora de São Paulo escolheu uma receita do prato italiano para lembrar do filho William, que está desaparecido desde 2016. Loveane conta que os dias de pizza eram dias de festa, com todos os integrantes da família envolvidos no preparo. William era o responsável por esticar a massa.
“Sinto muita falta dele, mas não pretendo desistir de encontrá-lo ou, ao menos, saber o que aconteceu”, conta Loveane. O rapaz era estudante de Direito e, a última vez que ela o viu foi em uma segunda-feira de outubro, quando estava saindo de casa para ir trabalhar.
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Nesta sexta-feira (28/8), o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e o Movimento Nacional de Familiares de Pessoas Desaparecidas promovem o lançamento do livro “Sabor da Saudade”, composto por uma coletânea com 40 receitas de familiares de pessoas desaparecidas. O lançamento será na Universidade de Brasília (UnB).
As receitas, de acordo com os organizadores, representam uma maneira afetuosa de chamar a atenção para o desamparo das famílias.
William e a mãe Loveane: rapaz desapareceu em 2016
A receita da pizza de William está lá, bem como as instruções para o preparo da sobremesa favorita da família Rubens Paiva: o sorvete napolitano.
“Esse sorvete nos lembra dos dois: o gosto de meu pai e o talento de minha mãe. Também nos faz constatar que a memória deles persiste entre nós, tios, primos e irmãos”, relatou Nalú Paiva, filha de Rubens e Eunice, aos organizadores do livro. A história do desaparecimento de Rubens Paiva e da luta de sua esposa por justiça é contada no filme “Ainda estou aqui”.
Problema invisível
A professora Simone Rodrigues, que coordena o Observatório de Desaparecimento de Pessoas no Brasil (ObDes) da Universidade de Brasilia, conta que o sentimento de história interrompida costuma congelar os familiares, deixando-os exatamente no momento em que a pessoa desapareceu do convívio.
“Tanto a vida emocional como a vida civil das famílias fica completamente deteriorada”, relata Rodrigues, acrescentando que o Brasil ainda não tipificou o crime de desaparecimento forçado.
“Os motivos e circunstâncias nos quais ocorrem os desaparecimentos são muito distintos – vão desde violência sexual à tráfico de pessoas. O observatório é uma iniciativa para estudarmos o fenômeno, percebemos quais são os grupos mais vulneráveis e criarmos políticas públicas específicas”, comenta Rodrigues.
Outra reivindicação dos familiares é a criação de um cadastro único de desaparecidos, que seja interligado entre os estados, permitindo a possibilidade de reconhecimento entre o material genético dos familiares e os corpos que ficam sem identificação nos IMLs do país.
“O desaparecimento de pessoas no Brasil precisa ganhar visibilidade, pois é um ato de violência comparável aos piores crimes”, acrescenta Simone Rodrigues.
Segundo a última edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 81.873 pessoas desapareceram em 2024 e 57.568, foram encontradas. Os números, no entanto, são bastante imprecisos, pois se referem a quaisquer desaparecimentos que se transformaram em ocorrência nas delegacias e que, muitas vezes, são solucionados com o simples retorno da pessoa à sua casa.
Em outras palavras, a imprecisão mascara as situações de desaparecimento forçado, que afetam os gupos mais vulneráveis.