Pesquisa inédita no DF busca entender por que homens matam mulheres e revela padrões do feminicídio

O Governo do Distrito Federal (GDF) apresentou nesta sexta-feira (12) os resultados da pesquisa inédita Panorama da Violência contra a Mulher no DF, considerada a primeira do país realizada por um ente federativo com o objetivo de compreender as motivações que levam homens a cometer feminicídio.

O levantamento, conduzido pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), em parceria com a Secretaria da Mulher (SMDF) e a Secretaria de Administração Penitenciária (Seape), ouviu mais de 5 mil pessoas em todas as regiões administrativas do DF e entrevistou 39 homens presos por feminicídio no Complexo Penitenciário da Papuda.

Os dados apontam que o feminicídio não está associado a uma única causa, mas a trajetórias marcadas por padrões de masculinidade ligados à autoridade, ao controle e à dificuldade de lidar com conflitos. Entre os comportamentos identificados antes dos crimes estão controle sobre o celular da parceira, ameaças, agressões físicas e uso de armas.

Para o presidente do IPEDF, Manoel Clementino, a etapa de entrevistas com autores de feminicídio foi fundamental para compreender os fatores que antecedem os crimes. “Obtivemos autorização judicial para acessar os presos e realizamos um trabalho inédito para entender as motivações desses autores. Foi uma experiência sem precedentes para o instituto e exigiu uma articulação cuidadosa entre diversos órgãos do governo”, explicou.

Durante a apresentação dos dados, a governadora Celina Leão (PP) anunciou a assinatura de um decreto que institucionaliza a pesquisa, garantindo sua realização a cada dois anos para subsidiar políticas públicas de prevenção, acolhimento e proteção às mulheres. “A maioria das pesquisas sobre violência contra as mulheres não é feita pelo poder público. A institucionalização desse levantamento nos dá um caminho para entender o que está acontecendo e como enfrentar esse desafio. É uma iniciativa inovadora e uma das maiores do Brasil pelo número de entrevistados”, afirmou a governadora.

Segundo Celina Leão, a proposta surgiu a partir de uma questão central: entender as razões que levam homens a matar suas companheiras. “Quando idealizamos essa pesquisa, a meta era entrevistar os feminicidas para chegar à pergunta: ‘Por que os homens nos matam?’. Isso permite uma leitura psicológica, comportamental e social desses casos. Entender é importante, mas agir para enfrentar essa realidade é ainda mais necessário”, destacou.

O secretário de Segurança Pública do DF, Alexandre Patury, afirmou que os resultados refletem a realidade observada diariamente pelas forças de segurança. “Às vezes, durante a noite ou nos fins de semana, a cada 10 ou 15 minutos recebemos um alerta de violência doméstica pelo 190. Os números da pesquisa mostram uma realidade que ainda é subnotificada, porque muitas mulheres não denunciam por medo”, afirmou.

Segundo ele, compreender as motivações dos crimes é fundamental para interromper o ciclo da violência. “É uma pesquisa corajosa porque busca entender aquilo que muitas vezes se evita discutir. Para quebrar o ciclo, é preciso compreender o problema”, disse.

Patury também destacou a questão patrimonial como um dos elementos presentes em muitos casos. “Não se trata apenas de quem sustenta a casa. Muitas vezes, a mulher é a provedora, mas o homem se apropria desse patrimônio e exerce poder sobre ela. Isso está relacionado a uma cultura histórica de machismo estrutural”, avaliou.

Números preocupam

Entre os principais resultados do levantamento, 77,6% das mulheres entrevistadas relataram já ter vivido algum tipo de violência ao longo da vida. Além disso, 44,8% afirmaram reconhecer que foram vítimas e, desse grupo, 15,4% ainda mantêm relacionamento com o agressor.

A dependência financeira apareceu como um dos principais fatores associados à violência praticada por parceiros íntimos. A pesquisa também identificou dificuldades no reconhecimento de situações de violência. Quase metade dos entrevistados (49,4%) não considera que impedir uma mulher de acessar o próprio dinheiro seja sempre uma forma de violência.

Apenas 33,8% das mulheres e 19,7% dos homens conseguiram identificar corretamente todas as situações apresentadas pelos pesquisadores. O estudo ainda revelou a persistência de visões estereotipadas sobre as mulheres: 35,4% concordam com a frase “toda mulher é um pouco histérica”, 34,9% consideram que “mulher é o sexo frágil” e 33,3% concordam com a afirmação “tem mulher que é para casar e mulher que é para cama”.

O levantamento também identificou diferenças regionais. Nas áreas de maior renda, a percepção de aumento da violência é menor, mas o reconhecimento das situações de violência é mais preciso. Já nas regiões de menor renda, ocorre o movimento inverso.

Rede de proteção ampliada

Durante a apresentação da pesquisa, a governadora também destacou as ações implementadas pelo GDF para fortalecer a proteção às mulheres desde a criação da Secretaria da Mulher, em 2019.

Entre as iniciativas estão a inauguração da Casa da Mulher Brasileira, em Ceilândia, a criação da Força-Tarefa de Combate ao Feminicídio, do programa Acolher Eles e Elas, do Comitê de Proteção à Mulher, além da implantação do Aluguel Social e do Passe Livre para mulheres em situação de violência.

Segundo o governo, a rede de atendimento passou de 14 para 31 unidades, com a criação de 17 novos equipamentos públicos voltados ao acolhimento e à proteção feminina. Apenas em 2025, mais de 70 mil atendimentos diretos foram realizados, alcançando mais de 100 mil mulheres por meio de programas e ações, com investimentos superiores a R$ 86 milhões.

A previsão do GDF é inaugurar ainda este ano uma nova unidade da Casa da Mulher Brasileira na região central de Brasília.

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