Após sequestro de jovem, ato cobra reforço da rede de proteção às mulheres em Águas Lindas

Movimentos sociais, sindicatos, partidos políticos e moradores de Águas Lindas de Goiás realizam, nesta terça-feira (25), um ato contra a violência às mulheres, na Rotatória da Santa, no Jardim Brasília. A manifestação foi convocada após o caso de Emiliane Tamara Nunes Carvalho, de 24 anos, que desapareceu em 17 de agosto e foi encontrada cinco dias depois amordaçada e acorrentada a uma cama, em uma casa no Jardim América III, e cobra do poder público o fortalecimento da rede de proteção às vítimas de violência no município.

Com o lema “Chega de violência contra as mulheres em Águas Lindas”, a mobilização reivindica a ampliação dos serviços especializados, atendimento 24 horas, melhorias na saúde e no acompanhamento psicossocial, além de medidas para melhorar o transporte coletivo e facilitar o acesso das vítimas aos equipamentos públicos.

Segundo Sara Oliveira Lins, da coordenação do Movimento de Mulheres Olga Benario, a repercussão do caso de Emiliane motivou a convocação do ato em um momento de grande mobilização em torno da violência contra as mulheres. “A gente escolheu fazer agora exatamente para aproveitar toda essa comoção e trazer atenção para as violências às quais as mulheres estão submetidas e que podem encontrar todos os dias”, afirmou.

Jovem já havia pedido proteção

Antes do sequestro, Emiliane havia procurado a Justiça para pedir proteção contra o ex-companheiro. Segundo informações divulgadas pelo Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO), ela conseguiu uma medida protetiva em 2020, com validade de 180 dias, e fez um novo pedido em 2026.

No pedido mais recente, a jovem relatou episódios ocorridos entre dezembro de 2025 e março deste ano, incluindo danos a uma câmera de segurança e outras situações que atribuía ao ex-companheiro. O Ministério Público se manifestou contra o pedido e a Justiça negou a medida ao considerar que não havia elementos objetivos suficientes para relacionar o homem aos episódios relatados e demonstrar uma situação atual de risco.

Emiliane desapareceu após sair de uma clínica em Águas Lindas. Ela foi localizada na sexta-feira (21), em uma residência no Jardim América III. Segundo a Polícia Civil, o imóvel teria sido alugado para mantê-la em cárcere privado. O ex-companheiro foi preso em flagrante e teve a prisão convertida em preventiva.

Após ser resgatada, a jovem relatou ter sofrido diferentes formas de violência durante os cinco dias em que permaneceu no local.

Para o Movimento Olga Benario, o caso levanta questionamentos sobre a capacidade da rede de proteção de agir antes que a violência se agrave. “Como alguém chega falando que está sofrendo uma coisa e o Judiciário não acredita? Como a gente vai realmente confiar que o Estado vai garantir essa proteção a que a gente tem acesso como mulher?”, questionou Sara Lins.

Apesar das críticas, o movimento afirma continuar orientando mulheres em situação de violência a procurar a Justiça e solicitar medidas protetivas. Para Sara, o instrumento é importante, mas não é suficiente, sozinho, para impedir novos episódios de violência.

Entidades cobram atendimento 24 horas

As organizadoras também apontam dificuldades no acesso aos serviços especializados disponíveis em Águas Lindas. Segundo informações levantadas pelo Movimento de Mulheres Olga Benario, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h. Já o Centro de Referência da Mulher Brasileira (CRMB) atende de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.

O movimento defende que os serviços tenham funcionamento durante todo o dia e também aos fins de semana, sob o argumento de que situações de violência podem ocorrer fora do horário comercial.

A precariedade do transporte coletivo dentro do município também está entre as reclamações. De acordo com Sara, mulheres que vivem em regiões mais afastadas enfrentam dificuldades para chegar a delegacias, unidades de saúde e serviços de assistência.

“Como as mulheres vão sair de um extremo do município para ir até a delegacia?”, questionou.

O movimento também reivindica melhorias no atendimento de saúde e no acompanhamento psicossocial oferecido às mulheres vítimas de violência.

Três mulheres foram mortas em cinco dias

O caso de Emiliane ocorre meses depois de uma sequência de mortes de mulheres em Águas Lindas. Em dezembro de 2025, três mulheres foram assassinadas em um intervalo de cinco dias, em casos noticiados à época como feminicídios.

As vítimas foram Larissa Conceição Amaral, Jennifer Caroline Torres da Costa Sousa e Marinalva Silva Braga. Os crimes ocorreram entre os dias 14 e 18 de dezembro.

Para o Movimento Olga Benario, a sequência de casos reforça a necessidade de políticas públicas capazes de identificar e interromper situações de violência antes que elas evoluam para crimes mais graves.

“Só as mulheres organizadas e unidas vão conseguir lutar efetivamente contra toda essa violência”, afirmou Sara.

Além do ato desta terça-feira, o movimento prepara um encontro de mulheres para domingo (30), à tarde, na Feira Central de Águas Lindas. A proposta é ampliar o debate sobre segurança, direitos e políticas públicas voltadas às mulheres.

As organizações também articulam a participação de Águas Lindas em uma jornada nacional contra estupros e feminicídios prevista para 9 de setembro.

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