Todos os dias, milhares de moradores do Entorno do Distrito Federal enfrentam uma rotina de longas esperas, ônibus lotados, atrasos e veículos em condições precárias para conseguir chegar ao Distrito Federal. Para quem precisa trabalhar ou estudar na capital, o deslocamento começa ainda de madrugada e pode consumir horas do dia.
O sistema de transporte que liga os municípios goianos ao DF atende 12 municípios, com 379 linhas e uma frota de aproximadamente 700 ônibus. Dados oficiais apontam que, em 2019, mais de 7 milhões de passageiros utilizavam anualmente o transporte público entre as duas unidades da federação.
Apesar da demanda, o serviço ainda apresenta problemas de cobertura. Os municípios de Alexânia, Abadiânia, Cristalina e Padre Bernardo, por exemplo, não contam com transporte regular diário para o Distrito Federal.
Entre as principais reclamações dos passageiros estão atrasos na saída das viagens, demora nos pontos de ônibus, superlotação e veículos com problemas de manutenção. Em alguns casos, os ônibus apresentam falhas durante o trajeto, obrigando os passageiros a interromper a viagem e esperar por outro veículo.
A rotina é ainda mais difícil para quem precisa chegar ao DF no início do expediente. Muitos passageiros saem de casa durante a madrugada para tentar chegar antes das 8h. O tempo gasto no deslocamento acaba reduzindo as horas disponíveis para descanso e convivência familiar.
Mais de 157 mil passageiros em dias úteis
A dimensão da demanda aparece nos dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Segundo a agência, 157.560 passageiros utilizam o transporte público coletivo em dias úteis para se deslocar entre os municípios do Entorno e o Distrito Federal.
A movimentação também é expressiva aos fins de semana:
- Sábados: cerca de 90 mil passageiros;
- Domingos e feriados: aproximadamente 47 mil passageiros.
O levantamento mostra a importância do transporte coletivo para uma população que mantém forte relação de trabalho, estudo e serviços com Brasília.
Trabalhadores e estudantes dependem dos ônibus
Dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada (PDAD-A) 2024, realizada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF Codeplan), também revelam a dimensão do fluxo diário.
Cerca de 122 mil trabalhadores utilizam ônibus no deslocamento entre o Entorno e o Distrito Federal. Entre os municípios de origem, destacam-se Águas Lindas de Goiás, com mais de 55 mil trabalhadores, e Valparaíso de Goiás, com mais de 42 mil. Novo Gama e Luziânia aparecem na sequência, com mais de 24 mil trabalhadores cada.
Entre os estudantes, são aproximadamente 44 mil pessoas, das quais cerca de 18 mil utilizam ônibus ou transporte escolar público. Novo Gama concentra aproximadamente 9 mil estudantes que fazem esse deslocamento, seguido por Águas Lindas de Goiás, com cerca de 8,3 mil. Valparaíso de Goiás e Planaltina também aparecem entre os principais municípios de origem, com quase 8 mil estudantes cada.
Tarifa pesa no orçamento
Além da qualidade do serviço, o preço das passagens é outro obstáculo para quem depende diariamente do transporte entre o Entorno e o DF. Para um trabalhador que utiliza o ônibus todos os dias, fazendo o trajeto de ida e volta, o gasto mensal pode chegar a aproximadamente R$ 400, valor que pesa diretamente no orçamento das famílias.
Para muitos passageiros, o custo acaba sendo ainda mais significativo porque o transporte não é utilizado apenas para trabalhar. Há também deslocamentos para escolas, universidades, consultas médicas, serviços públicos e outras atividades realizadas no Distrito Federal.
Quem vive a rotina do transporte
Benigno Neto, morador de Planaltina de Goiás há 40 anos e precisa sair 4h da madrugada para não atrasar no trabalho. Ele disse que vive essa rotina há décadas, sem esperança de mudar. “Esses ônibus saem na hora que quer. Nós estamos é sofrendo com essa empresa. Nós temos que é tirar ela daqui. Botar uma melhor para nós. Em Planaltina é a única empresa que tem”, destaca Benigno, referindo-se à Amazonia Tur, que frequentemente tem greves e penaliza os usuários.
Ana Lídia, moradora de Luziânia resume o transporte em uma palavra: “péssimo”. Ela estava numa fila com mais de 50 passageiros que aguardavam para entrar no coletivo. “Esse ônibus não vai conseguir comportar todo mundo, vai muita gente em pé igual uma lata de sardinha”. Além dos ônibus cheios, Ana Lídia declara que precisa sair cedo para chegar pontualmente no trabalho. “Eu demoro pelo menos 4h pra vir e pra voltar. Fico mais tempo esperando e dentro do ônibus do que em casa”, acrescenta.
A doméstica Denir, moradora do bairro Lunabel, em Novo Gama, considera o transporte como “horrível, uma vergonha”. Ela acrescenta: “Os ônibus demoram bastante, lotados e às vezes quebra no caminho”. Segundo Denir, o sistema de transporte do Entorno tem muito a melhorar: “Colocar mais ônibus, uma linha adequada e ter mais humanidade para as pessoas”.
Edilene dos Santos, mora em Santo Antônio do Descoberto e conta com o apoio do marido para acompanhar até a parada de ônibus. “Quando não dá pra ele me levar, eu vou sozinha com medo, mas graças a Deus, que Deus sempre me livra”, desabafa. Ao entrar no transporte, as dificuldades também surgem: “Sempre os ônibus quebram. É muita poeira, muito sujo, ônibus velho, desconfortável demais. É uma viagem longa e cansativa”, detalha. Perguntada o que daria para fazer com o valor utilizado para ir e voltar do DF R$ 21,50, ela sonha. “Pagaria outra conta, é quase uns R$ 400 por mês”.


João Walter da Silva Braghirolli, 37 anos, vigilante e morador de Valparaíso de Goiás, depende do transporte para se deslocar pela região e até o Distrito Federal. “O transporte no Entorno ainda é muito precário. Temos atrasos, falta de linhas e falta de integração com o DF. A passagem é mais cara que no Distrito Federal, chegando a ser quase o dobro, e os ônibus têm péssimas condições de conservação e limpeza”.
Segundo ele, deveria haver mais atenção e fiscalização da ANTT em relação ao transporte, à qualidade dos ônibus e aos horários, além da criação de mais linhas no Entorno. “Quando não há acidentes na BR-040, gasto cerca de 1h40 no trajeto. Mas já fiquei quatro horas no trânsito. Isso acontece no contrafluxo, porque trabalho à noite. As pessoas que trabalham durante o dia precisam sair de madrugada e passam mais de quatro horas para chegar ao DF”, observa João.
O usuário do transporte do Entorno, clama por melhorias e investimentos na região. “Minha reivindicação é por mais linhas de ônibus e melhores horários durante a semana. Nos fins de semana, a oferta de linhas é quase nula”, cobra o vigilante.

Transporte clandestino ganha espaço
Diante da combinação de longas esperas, frota considerada insuficiente, ônibus lotados e problemas de conservação, parte dos passageiros acaba recorrendo ao transporte clandestino.
Vans e veículos particulares passam a ser vistos por alguns usuários como uma alternativa mais rápida e confortável para cumprir o trajeto. A escolha, porém, ocorre em meio aos riscos associados ao transporte irregular.
O cenário expõe um dos principais desafios da mobilidade no Entorno: garantir um sistema regular capaz de atender a uma população que depende diariamente do Distrito Federal, mas que ainda enfrenta dificuldades para conseguir chegar ao destino com previsibilidade, segurança, conforto e preço acessível.
Para quem vive essa rotina, o deslocamento não é apenas uma questão de transporte. É uma parte significativa do tempo e do orçamento gastos todos os dias para trabalhar ou estudar.
O que diz a ANATRIP
A ANATRIP foi questionada sobre por que as empresas utilizam ônibus antigos, mesmo com passagens caras, e por que mantêm veículos mais velhos, que geram mais gastos com manutenção.
Sobre as duas perguntas, a ANATRIP esclarece que a raiz do problema não está na gestão das empresas, mas na inércia histórica do poder público em estruturar e subsidiar o transporte semiurbano entre o Distrito Federal e o Entorno de Goiás.
O transporte semiurbano DF-Goiás é o único sistema de transporte coletivo do país que opera integralmente sem qualquer tipo de subsídio governamental. 100% do custo da operação é suportado exclusivamente pelo usuário, por meio da passagem.
Sem subsídio, qualquer investimento em renovação de frota precisa ser financiado unicamente pela receita tarifária. A tarifa hoje praticada cobre, no limite, os custos operacionais básicos das empresas, sem margem para financiar a troca acelerada de veículos.
Os Governos do Distrito Federal e de Goiás discutem a criação de um consórcio interfederativo para estruturar e financiar esse sistema, mas, até hoje, essa solução não saiu do papel.
Enquanto os dois governos discutem, adiam e não avançam, o sistema segue dependendo exclusivamente da tarifa paga pelo usuário. Nesse cenário, a defasagem da frota não é escolha do operador — é consequência direta e inequívoca da inércia do próprio poder público.
A ANATRIP reforça que a solução para a qualidade do serviço — incluindo a renovação de frota — depende exclusivamente de uma decisão que cabe aos governos do DF e de Goiás tomarem: implementar o subsídio público.
Segundo dados do Governo de Goiás, somente em 2025 o Estado destinou cerca de R$ 500 milhões em subsídios ao transporte coletivo em Goiânia. As empresas conseguem investir quando há subsídio. Contudo, na região do Entorno, além da ausência desse aporte financeiro, a ANTT e o GDF congelaram as tarifas.
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