Oráculo MC leva “Filhos do 3º Mundo” ao Elemento em Movimento e transforma território em música

Da zona oeste de São Paulo às ruas e áreas rurais de Planaltina, a trajetória de Oráculo MC é atravessada por música, território, memória e luta social. No dia 5, às 22h, o artista retorna ao Festival Elemento em Movimento, na Ceilândia, desta vez para apresentar o show de “Filhos do 3º Mundo”, álbum lançado em 2025. A apresentação será acompanhada pela banda Filhos do 3º Mundo e contará com participações de Japão, do Viela 17, Zaum MC e MedX MC, além de DJ Sapo, da Cyphers Clan.

A apresentação integra a programação da 8ª edição do Elemento em Movimento, que ocupa a Praça do Trabalhador entre os dias 2 e 6 de setembro com programação gratuita dedicada à cultura periférica. Para Oráculo, voltar ao festival tem um significado que vai além de retornar a um palco conhecido. É também a oportunidade de apresentar um trabalho construído a partir de experiências que aproximam diferentes territórios e formas de resistência.

No ano passado, o rapper esteve no festival ao lado do Viela 17, durante a celebração dos 35 anos do grupo, a convite de Japão. A experiência, segundo ele, foi marcante. “Foi um momento muito importante para mim, porque o Viela é um dos grupos mais relevantes de todos os tempos aqui no Distrito Federal, com grande relevância também no cenário nacional”, afirma.

Para Oráculo, dividir o palco com Japão representa um processo de aprendizado e fortalecimento. “Subir no palco ao lado de um grande mestre da nossa cultura como ele traz um fortalecimento muito grande para a gente, tanto para a carreira quanto para a vida e para a nossa formação como ser humano”, conta.

Agora, o encontro acontece novamente, mas em outra configuração. Oráculo chega acompanhado da banda completa, formada por Zaum e MedX nos vocais, Lucas Lopes na guitarra, Jota Dale no baixo e DJ Sapo, a quem chama de “nossa bússola”. A expectativa é de uma apresentação marcada pela energia do rap e pela força das performances ao vivo.

“Estamos preparando um show foda, um show memorável”, promete.

Entre a quebrada e o campo

Nascido em São Paulo e radicado em Planaltina, Oráculo encontrou no Distrito Federal novas perspectivas para compreender a própria origem e as questões que atravessam sua produção artística. A mudança de território o aproximou das lutas do campo e de movimentos sociais, experiências que acabaram modificando também sua maneira de enxergar as periferias urbanas.

“Acredito, principalmente, que o que mudou foi a minha forma de entender melhor a luta social do povo brasileiro”, explica. Segundo o artista, a vivência em Planaltina permitiu um contato mais próximo com a história da luta pela terra e com organizações ligadas aos movimentos sociais.

Essa aproximação aconteceu também durante sua formação na Licenciatura em Educação do Campo, curso que, segundo Oráculo, esteve ligado a experiências e discussões envolvendo o MST, a CONAQ e a UnB. “Por meio desse curso e das vivências junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, nos acampamentos e assentamentos, comecei a entender melhor a própria periferia”, relata.

Foto: Lucas Lopes

A partir dessas experiências, o rapper passou a estabelecer uma relação direta entre a formação das periferias brasileiras e a história do campo. “As quebradas das grandes cidades, na verdade, são filhas do campo, netas das pessoas do campo”, afirma.

Para ele, compreender a realidade das grandes cidades exige olhar para processos históricos anteriores à formação das periferias. “Para a gente entender o processo que está vivendo, precisa entender o que veio antes. Como dizem: viver sem conhecer o passado é viver no escuro”, diz.

Esse olhar levou Oráculo a buscar referências sobre a questão agrária brasileira e os processos históricos que contribuíram para a formação do país. Entre os estudos que considera importantes nessa trajetória estão as obras “Questões Agrárias 1, 2 e 3”, de João Pedro Stédile, além de temas como a Lei de Terras, a reforma agrária, as Ligas Camponesas e a atuação da Via Campesina.

O conhecimento adquirido nesse percurso também mudou sua leitura sobre artistas que já faziam parte de suas referências. Oráculo cita Sabotage como exemplo de como compreender a história do território pode ampliar a interpretação de uma obra.

“Quando acesso esse conhecimento das organizações, como a Via Campesina e as Ligas Camponesas, e conheço a história das Ligas Camponesas no período que antecedeu a ditadura militar, com aquela galera se organizando, lutando e reivindicando a reforma agrária, passo a entender muito melhor o que o Sabotage estava dizendo”, afirma.

A reflexão parte da própria experiência do rapper paulista e chega à formação das periferias urbanas. “Para eu entender o porquê e como se formaram as favelas, como se constituiu essa organização urbana das cidades e como surgiram as periferias das grandes cidades, é preciso entender o que aconteceu no campo brasileiro, a história do campo brasileiro”, explica.

Segundo ele, esse processo acabou inevitavelmente chegando à música. “Acho que isso acrescentou muito à minha obra. Muito mesmo. Mudou a minha forma de pensar e, consequentemente, mudou a minha forma de fazer rap.”

Um disco sobre território

É justamente essa compreensão ampliada sobre território que atravessa “Filhos do 3º Mundo”. O álbum reúne oito momentos entre faixas e interlúdio e transita por questões políticas, econômicas e sociais, sem deixar de lado dimensões mais íntimas da experiência humana.

Na obra, discussões sobre sociedade e território convivem com questões afetivas, espirituais e existenciais. Para Oráculo, essa mistura não é acidental. Ela representa a própria forma como enxerga a vida e as experiências das populações do chamado Terceiro Mundo.

“A ideia do disco era tentar trazer essa coisa múltipla que somos, né? Principalmente nós, do Terceiro Mundo. Para ser mais específico, aqui no nosso continente, no nosso país”, explica.

O artista entende que diferentes dimensões da vida estão conectadas. “A gente é muito integrado. Tudo está muito junto. A nossa luta social, a nossa luta espiritual, a nossa espiritualidade, a nossa existência, a nossa cosmologia com a Terra, com a natureza. Tudo está altamente interligado.”

Nesse sentido, o território aparece como um dos principais fios condutores do álbum. “Esse disco é muito sobre território. Filhos do Terceiro Mundo é um disco sobre território”, resume.

A obra também reúne referências de diferentes áreas da cultura e do pensamento. Escritores, rappers e pensadores aparecem nas entrelinhas do trabalho, compondo uma espécie de diálogo entre diferentes gerações e formas de compreender o mundo.

“É um disco que traz muitas citações de artistas que eu acho foda: escritorxs, rappers, pensadorxs, das mais diversas formas possíveis, presentes nas entrelinhas desse trabalho”, conta.

A relação com a música, no entanto, começou muito antes do álbum. Ainda criança, Oráculo teve contato com discos e fitas do pai, experiência que ajudou a formar seu repertório e, posteriormente, sua relação com a música como ferramenta de expressão.

O resultado é um trabalho que não se limita às fronteiras do rap. Elementos de ritmos brasileiros, como o maracatu, também aparecem na construção do álbum, aproximando referências populares e tradicionais de uma linguagem urbana contemporânea.

Para o artista, a permanência das ideias presentes no disco será também uma forma de medir seu impacto. “Uma vez, um amigo meu me disse que esse disco ia envelhecer igual vinho. Espero que sim”, brinca.

Rap, território e encontro

No Elemento em Movimento, Oráculo pretende levar essa mistura de referências para um espaço que considera diretamente conectado à proposta do álbum. O festival, realizado na Ceilândia e com entrada gratuita, reúne diferentes gerações e vertentes da cultura periférica e, para o rapper, representa um ambiente fundamental para que a música alcance quem vive esses territórios.

“O Elemento em Movimento é um dos maiores festivais de periferia deste país. Então, para a gente estar ali, é luta e baile, mano”, afirma.

A escolha do local e o caráter gratuito da programação também são destacados pelo artista como elementos importantes. “É um festival que tem tudo a ver com o disco, que dialoga diretamente com tudo o que ele fala e com tudo aquilo em que a gente acredita.”

Para Oráculo, ocupar a quebrada com um show autoral significa devolver à própria comunidade uma produção que nasce de diferentes experiências coletivas. “A importância de levar esse show para esse festival também está no fato de ele acontecer na quebrada e ser gratuito. É levar nossa música, nossa mensagem e nossa energia para quem está ali.”

No palco, essa proposta ganha a dimensão coletiva da banda e das participações especiais. Japão, Zaum MC e MedX MC se juntam ao artista em uma apresentação que pretende unir diferentes momentos e referências do rap produzido no Distrito Federal.

“Estamos preparando um show foda, daqueles que ficam na memória”, garante.

SERVIÇO
Oráculo MC – “Filhos do 3º Mundo”
Festival Elemento em Movimento 2026
Data: 5 de setembro de 2026
Horário: 22h
Local: Praça do Trabalhador, Ceilândia (DF)
Participações: Japão (Viela 17), Zaum MC e MedX MC
Banda: Oráculo MC e Filhos do 3º Mundo
Entrada: gratuita

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