Pais e responsáveis por pacientes atendidos na Casa do Abraço Centro de Atendimento Multiprofissional Vitória Vieira, em Abadiânia, no Entorno do Distrito Federal, denunciam dificuldades para conseguir atendimento na unidade. As reclamações envolvem a falta de profissionais de saúde, atrasos em consultas e interrupções no acompanhamento de crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD) e de famílias em situação de vulnerabilidade social.
Segundo os relatos, a redução da equipe tem provocado demora nos atendimentos e obrigado pacientes a buscar assistência em municípios vizinhos. Mães ouvidas pela reportagem, sob condição de anonimato, afirmam que alguns filhos estão sem receitas médicas e enfrentam dificuldades para manter o tratamento, situação que teria provocado crises de ansiedade, convulsões e episódios de epilepsia.
Na quarta-feira (29), o prefeito de Abadiânia, Itamar Vieira Gomes (PP), afirmou à reportagem do Jornal Opção Brasília/Entorno que a unidade passa por um processo de reorganização. Segundo ele, a direção da Casa do Abraço foi afastada temporariamente para reestruturar os serviços e viabilizar a contratação de novos profissionais, garantindo que os atendimentos já estariam normalizados.
No entanto, durante visita realizada pela reportagem na tarde desta quinta-feira (30), a unidade estava com os portões fechados. Após insistência, uma psicóloga recebeu a equipe e informou que cumpria seu último dia de trabalho, aguardando pacientes para atendimento pré-agendado, porém, durante o período que a equipe esteve no local, cerca de 40 minutos, ninguém chegou para ser atendido. Ela disse não poder comentar a situação administrativa da unidade, mas confirmou que não havia outros profissionais nem a diretora no local. As portas dos demais consultórios e o setor administrativos estavam trancadas.
Em seguida, a reportagem esteve na Secretaria Municipal de Saúde. Nem o secretário Waltin Braz Dutra nem outros servidores prestaram esclarecimentos sobre a situação. As ligações feitas posteriormente ao secretário também não foram atendidas.
Na manhã desta sexta-feira (31), a diretora da Casa do Abraço, Belchior Maria de Almeida Sousa, afirmou que não concederia entrevista e declarou que o atendimento ocorria normalmente. Porém, mais tarde foi informado que a instituição não abriria as portas para atendimento durante esta sexta-feira, por falta de profissionais. Mesmo recebendo um salário de pouco mais de R$ 12 mil, Belchior, não costuma cumprir horário na Casa do Abraço.
De acordo com servidores ouvidos pela reportagem, a única alteração recente na equipe foi a chegada da servidora Lázara Lemes, há cerca de um mês para ficar responsável pela parte da saúde. A prefeitura também anunciou a contratação de novos psicólogos e psiquiatras, que deverão iniciar os atendimentos nos próximos dias.
A Casa do Abraço foi inaugurada em outubro de 2024 com a proposta de oferecer atendimento multiprofissional especializado a pessoas com deficiência e necessidades especiais no município, reduzindo a necessidade de deslocamento para outras cidades.

Mães relatam intimidação após cobranças
Além das dificuldades para conseguir atendimento, mães afirmam ter sido intimadas por reclamarem pela falta de atendimento na Casa do Abraço. Elas foram convidadas a prestar esclarecimento na delegacia do município. Segundo elas, a medida ocorreu a partir de uma representação por calúnia e difamação feita por servidoras da instituição.
Uma das mães, que preferiu não se identificar, afirma que a ação judicial ocorreu mesmo sem ter citado nomes em suas manifestações públicas. “Eu estou sendo processada por calúnia e difamação. O mais engraçado é que quando eu cheguei, o pessoal da delegacia nem sabia que eu estava sendo processada. Nunca citei nomes. Sempre falei que estava defendendo o tratamento do meu filho.”
Vereador cobra solução
O vereador Vitor Lucas (PP) também criticou a situação da unidade. Segundo ele, a Casa do Abraço foi criada para evitar que famílias precisassem buscar atendimento especializado em outras cidades, mas atualmente enfrenta falta de profissionais e dificuldades para manter os serviços. “O objetivo era oferecer mais praticidade às mães atípicas e garantir que as crianças fossem atendidas em Abadiânia. Hoje, infelizmente, a Casa do Abraço vive uma situação muito difícil, com falta de psiquiatras, psicólogos e outros profissionais”, afirmou.
O parlamentar também questionou a qualificação dos novos profissionais contratados para substituir parte da equipe anterior. Segundo ele, há denúncias de que alguns ainda não possuem Registro de Qualificação de Especialista (RQE), documento exigido para determinadas especialidades médicas. “Hoje muitas crianças precisam sair de madrugada para Goiânia para conseguir atendimento. Isso rompe a rotina, aumenta o estresse e prejudica a continuidade do tratamento”, disse o vereador.
Até a publicação desta reportagem, a Secretaria Municipal de Saúde não havia se manifestado sobre os questionamentos referentes ao funcionamento da unidade, às denúncias apresentadas pelas famílias e à suposta falta de profissionais especializados.
