O cancelamento da festa do aniversário de Brasília, com a destinação de R$ 25 milhões e o anúncio de zerar a fila das cirurgias para a Saúde são, antes de tudo, um gesto político. A decisão transmite a mensagem de que o Governo de Celina Leão (PP) reconhece a gravidade da situação enfrentada pela rede pública. O problema é que, diante da sucessão de crises registradas nas últimas semanas, o reforço financeiro chega em um cenário em que a discussão deixou de ser apenas sobre orçamento e passou a ser sobre capacidade de gestão.
Os episódios se acumulam em ritmo que transforma casos isolados em sintomas de uma crise mais ampla e generalizada. No Hospital Regional de Ceilândia, pacientes ficaram sem atendimento ortopédico por falta de insumos, apesar da presença de médicos. A situação também atingiu o Hospital Regional de Taguatinga, deixando duas das principais unidades da região sem capacidade para atender uma especialidade essencial. Quando hospitais de referência deixam de oferecer serviços básicos por falta de materiais, o problema deixa de ser operacional e passa a evidenciar falhas de planejamento e abastecimento.
Os relatos de pacientes também reforçam a percepção de uma rede sob forte pressão. Um idoso de 78 anos, cadeirante, diabético, hipertenso e com sequelas de AVC, teria deixado o Hospital Regional de Ceilândia sem o suporte necessário para retornar para casa. No Hospital de Base, um paciente denunciou ter aguardado 18 dias por uma cirurgia e recebido alta sem a realização do procedimento, justamente no período em que o governo inaugurava um novo centro cirúrgico como símbolo da ampliação da capacidade de atendimento. O paciente diz, que a retirada dos pacientes foi explicada para que os gestores e a governadora não tivessem acesso aos internados.
Espera de 15 anos por exame
O drama vivido por uma família do Distrito Federal reforça as críticas à demora no atendimento da rede pública de saúde. Viviane Macedo, filha de uma paciente que morreu após complicações de saúde, afirma que a mãe aguardou por anos exames e consultas especializadas e, dias após o falecimento, a família recebeu uma convocação para a realização de procedimentos que nunca chegaram a ser feitos em vida.
Segundo Viviane, a mãe apresentava há anos sintomas como crises frequentes de azia e episódios de desidratação. Mesmo sendo obesa e considerada paciente de grupo prioritário, ela afirma que a família aguardava havia anos por uma endoscopia e outros exames de imagem solicitados pela rede pública.
De acordo com o relato, o diagnóstico só foi confirmado quando a paciente já apresentava um quadro grave de úlcera perfurativa no intestino delgado.
A filha conta que a mãe permaneceu quatro dias internada na UPA do Gama recebendo tratamento paliativo até conseguir realizar uma tomografia. Após o exame, ainda teria aguardado mais dois dias pela cirurgia e cerca de um dia e meio por uma vaga em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). “A demora aconteceu em todas as etapas. Esperamos pela tomografia, pela cirurgia, pela UTI e até pela ambulância especializada para fazer a transferência. Disseram que havia apenas duas para atender todo o Distrito Federal”, relata.
Viviane também afirma que a mãe convivia com artrose no joelho desde 2011 e aguardava atendimento ortopédico pela rede pública. Segundo ela, um dia após a morte da paciente, a família recebeu uma mensagem convocando-a para uma consulta com ortopedista. “Minha mãe esperou cerca de 15 anos por uma consulta. Ela morreu sem conseguir operar. Faltava pouco para uma cirurgia no Hospital Sarah, mas, se dependesse da rede pública do GDF, acredito que ela nunca conseguiria esse atendimento”, afirma.
Para a filha, a sequência de esperas evidencia problemas estruturais na saúde pública do Distrito Federal. “Os recursos, os hospitais, as ambulâncias e os tratamentos parecem esquecidos. Quem está do outro lado sofre enquanto espera por um atendimento que muitas vezes chega tarde demais”, conclui.
Farmácia de alto custo
Nem mesmo a distribuição de medicamentos escapou das reclamações. Pacientes da Farmácia de Alto Custo do Gama denunciaram que a unidade encerrou o atendimento antes do horário previsto no último dia do mês junho, impedindo a retirada de remédios indispensáveis para tratamentos contínuos.
Pacientes que dependem da Farmácia de Alto Custo da 102 Sul, em Brasília, denunciam demora excessiva, longas filas e dificuldades para conseguir atendimento na unidade responsável pela dispensação de medicamentos de uso contínuo e alto valor. Os remédios fornecidos no local são considerados essenciais para a sobrevivência e qualidade de vida de pessoas com doenças crônicas e autoimunes. São horas de espera, dificuldades para renovar cadastro e problemas no atendimento da unidade da Asa Sul. Medicamentos distribuídos no local são essenciais para a sobrevivência de pessoas com diabetes, lúpus, TDAH e doenças autoimunes.

Atenção básica
Nesta semana, a equipe de reportagem do Jornal Opção Brasília/Entorno, percorreu unidades de saúde para conhecer a situação. No Posto de Saúde 2 do Guará, ao chegar no período da tarde, a unidade de atendimento estava sem servidores e sem segurança, o acesso livre a todas as salas. Depois de quase 30 minutos apareceram alguns servidores e um vigilante. Pacientes aguardavam consultas e liberação de medicamentos para tratamento.
Uma grande fila, com cerca de 12 pessoas, entre bebês de colo, idosos e crianças autistas esperavam imunização. Eles esperaram mais de uma hora para receber a imunização e muitos estavam revoltados com a falta de medicamento. Uma mãe foi liberada, por falta da vacina BCG na unidade de saúde.
Arraiá na UPA
O episódio gerou críticas à condução da rede pública na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Riacho Fundo II. Na noite de quinta-feira (25), funcionários e colaboradores promoveram um arraial nas dependências da unidade durante o horário de expediente. Enquanto a confraternização acontecia, pacientes relataram que a UPA seguia com grande fluxo de atendimento e longos períodos de espera, o que provocou questionamentos sobre a adequação da realização de um evento festivo em uma unidade de urgência e emergência em pleno funcionamento. O episódio ampliou a percepção de insatisfação entre usuários da rede, que cobram prioridade ao atendimento e melhorias na prestação dos serviços de saúde.
Atendimentos no Entorno
Enquanto isso, cresce o número de moradores do Distrito Federal que procuram atendimento em hospitais do Entorno, em municípios como Valparaíso, Novo Gama e Formosa. O movimento, que antes era pontual, tornou-se cada vez mais frequente e expõe a perda de confiança de parte da população na capacidade da rede pública distrital de responder à demanda.
O anúncio dos R$ 25 milhões ajuda a construir uma resposta política diante da repercussão negativa, mas dificilmente será suficiente para alterar, no curto prazo, a percepção da população. Afinal, a crise não é medida apenas pelo valor investido, mas pela experiência de quem enfrenta filas, encontra serviços suspensos, espera meses por procedimentos ou precisa deixar o Distrito Federal para conseguir atendimento.
Em um governo que busca consolidar sua imagem administrativa, a Saúde deixou de ser apenas uma área de políticas públicas. Tornou-se o principal teste de credibilidade da gestão. E, até o momento, é também seu maior passivo político.
O que diz a Secretaria de Saúde do DF
A Assessoria de Comunicação da Secretaria de Saúde foi procurada para responder aos questionamentos e situação precária da saúde e as medidas que vão ser tomadas, mas não responderam até o fechamento desta reportagem. O espaço permanece aberto para esclarecimentos.
