A saúde pública será um dos principais desafios para o próximo governador do Distrito Federal, que assumirá o Palácio do Buriti em janeiro de 2027. Dados da Ouvidoria do GDF mostram aumento nas reclamações sobre o atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e sobre o tempo de espera na rede pública, enquanto especialistas apontam falta de serviços de atenção primária, déficit na saúde mental, dificuldades na gestão de leitos e condições de trabalho como problemas que pressionam o sistema.
Entre janeiro e 28 de agosto deste ano, foram registradas 5.391 reclamações relacionadas ao atendimento em UBSs. O número representa aumento de 14,77% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram contabilizadas 4.697 queixas.
O tempo de espera também aparece entre os principais problemas apontados pela população. No período analisado, as reclamações sobre demora no atendimento passaram de 169 para 271 registros, alta de 60,35%.
A situação também foi identificada pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). Em levantamento divulgado em julho, o órgão apontou que 12 das 13 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) do DF registravam tempo médio de espera superior a 11 horas.
Atenção básica sobrecarregada
Para uma especialista em Saúde Coletiva e professora da Universidade de Brasília (UnB), a insuficiência da atenção primária é um dos fatores que ajudam a explicar a pressão sobre os demais níveis da rede.
A atenção básica tem papel estratégico porque pode resolver grande parte das demandas de saúde antes que elas cheguem aos hospitais e às unidades de emergência. Quando a oferta é insuficiente, pacientes acabam procurando serviços de maior complexidade, aumentando a pressão sobre uma estrutura que já enfrenta dificuldades.
Outro problema apontado é a ocupação prolongada dos leitos hospitalares. A demora na alta e o tempo elevado de internação reduzem a capacidade de atendimento da rede e dificultam a entrada de novos pacientes.
A saúde mental também aparece entre os pontos considerados críticos. A cobertura dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) é apontada como insuficiente para atender a demanda, o que pode contribuir para a sobrecarga das emergências e das internações psiquiátricas.
Além da estrutura, as condições de trabalho dos servidores também são consideradas determinantes para a qualidade do atendimento. A avaliação é de que o DF possui profissionais qualificados, mas enfrenta dificuldades relacionadas à estrutura e à valorização das equipes.
Próximo governo terá que agir no início do mandato
Diante do cenário, o planejamento da saúde deverá estar entre as primeiras prioridades do próximo governo. A avaliação de especialistas é que medidas para reorganizar a atenção básica, melhorar a utilização dos leitos, ampliar a assistência em saúde mental e fortalecer as equipes precisam começar ainda nos primeiros meses da nova gestão.
A preocupação é que a combinação de demanda elevada, demora no atendimento e insuficiência de serviços continue aumentando a pressão sobre hospitais e UPAs.
População cobra atendimento
Para quem depende exclusivamente da rede pública, os problemas aparecem principalmente na dificuldade de conseguir consultas, exames e procedimentos dentro de um prazo considerado adequado. “Não adianta construir mais unidades se não houver profissionais para atender”, afirmou um morador do DF, ao defender a contratação e a valorização das equipes de saúde.
Outro ponto citado por moradores é a necessidade de melhorar a gestão dos recursos destinados à área. A percepção é de que o aumento dos investimentos precisa vir acompanhado de planejamento e eficiência para que os serviços cheguem efetivamente ao paciente.
A falta de servidores também é apontada como um dos principais obstáculos. Segundo moradores ouvidos, o problema não se limita a médicos e enfermeiros, mas envolve profissionais de diferentes áreas da rede, inclusive setores administrativos.
Com a eleição de 2026 se aproximando, a saúde deverá ocupar espaço central nas propostas dos candidatos ao governo do DF. Para o próximo governador, porém, o desafio não será apenas anunciar novas unidades ou ampliar investimentos, mas reorganizar uma rede que já enfrenta dificuldades para absorver a demanda atual.
