Tombamento de maior quilombo do mundo reacende esperança de proteção e desenvolvimento em Goiás

*Por Cintia Ferreira

O tombamento do território Kalunga como patrimônio histórico e artístico nacional, oficializado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), marca um novo capítulo na história do maior quilombo do mundo, localizado no Entorno do DF. A medida, aguardada desde o fim da década de 1980, é vista pelas comunidades como um passo decisivo para garantir proteção territorial, valorização cultural e abertura de novas oportunidades econômicas.

Com cerca de 260 mil hectares, o território está inserido no Cerrado brasileiro e abriga aproximadamente 8 mil quilombolas distribuídos em 39 comunidades, entre os municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre. A principal delas, Engenho II, reúne cerca de 800 moradores e funciona como referência administrativa e turística da região.

Apesar da grandiosidade territorial e da relevância histórica, o cotidiano no quilombo ainda preserva características de uma vida simples, baseada na agricultura familiar, no convívio comunitário e em tradições culturais transmitidas ao longo de gerações. A ausência de infraestrutura tecnológica é marcante: o acesso à internet é limitado, o sinal de televisão é inexistente e a comunicação ainda depende, em grande parte, da interação direta entre moradores.

Esse isolamento, no entanto, não impediu que desafios contemporâneos atingissem a população. A disseminação de desinformação, por exemplo, já impactou diretamente o acesso a direitos básicos. Segundo lideranças locais, boatos sobre possíveis intenções do governo afastaram moradores de benefícios previdenciários, como a aposentadoria rural, impedindo que muitos buscassem o direito garantido por lei.

Oito mil quilombolas em 39 comunidades nos municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre. Foto: Renato Souza.

A trajetória do povo Kalunga também é marcada por conflitos históricos. Relatos de moradores apontam que, ao longo do século passado, fazendeiros ocuparam áreas do território e impuseram cobranças sobre a produção agrícola das famílias, além de promoverem expulsões e destruição de lavouras. A situação começou a mudar apenas a partir dos anos 2000, com maior reconhecimento dos direitos territoriais.

Mesmo diante dessas adversidades, a identidade quilombola permanece forte. A cultura local é mantida por meio de práticas agrícolas sustentáveis, festas religiosas, manifestações culturais e um profundo vínculo com o território. “Ser quilombola é o grande tesouro que nós temos”, afirma uma das lideranças da comunidade, ao destacar a importância da preservação cultural como base da resistência do povo Kalunga.

O processo de tombamento, solicitado ainda em 1988 após a Constituição Federal, reconhecer o direito à terra para comunidades quilombolas, foi concluído em abril de 2026. O Quilombo Kalunga (GO) é o maior território quilombola do país. A medida inicial reconhece a área como sítio histórico e estabelece proteção institucional, enquanto as próximas etapas incluem o mapeamento detalhado dos bens culturais e das áreas a serem oficialmente catalogadas.

Como parte desse avanço, um acordo firmado entre o Iphan e o Sebrae, com vigência até 2028, prevê a realização de um inventário dos bens culturais e das potencialidades econômicas da região. A iniciativa busca estruturar políticas de desenvolvimento sustentável, com foco na valorização das atividades locais e no fortalecimento da economia comunitária.

Belezas naturais preservadas no território quilombola. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Promoção do Turismo

Entre as principais apostas está o turismo, que vem ganhando força nos últimos anos. A região oferece atrativos naturais, como cachoeiras e trilhas, além de experiências culturais ligadas à história e à culinária quilombola. A chegada da energia elétrica, há cerca de duas décadas, facilitou o acesso de visitantes e contribuiu para a geração de renda, especialmente entre os mais jovens, que atuam como guias turísticos.

A valorização do território também se reflete em iniciativas culturais, como a Casa de Memória da Mulher Kalunga e eventos tradicionais que mantêm viva a identidade local. Para lideranças comunitárias, o reconhecimento oficial representa não apenas proteção, mas a garantia de que o território continuará pertencendo às famílias que o preservam há gerações.

Sítios arqueológicos em Cavalcante. Foto: Renato Souza

Resgate da história

Histórias individuais ajudam a ilustrar a trajetória coletiva de resistência. Moradores relatam experiências de trabalho precoce, dificuldades econômicas e perda de vínculos familiares, mas também destacam conquistas recentes, como o acesso à educação e a possibilidade de empreender dentro da própria comunidade, especialmente com o crescimento do turismo.

Além da importância histórica ligada à formação de quilombos, o território Kalunga também abriga registros ainda mais antigos da presença humana. Sítios arqueológicos com inscrições em rochas indicam ocupação da região há cerca de 11 mil anos, ampliando o valor cultural e científico da área.

Diante desse cenário, o tombamento representa mais do que um reconhecimento formal: é visto como uma oportunidade concreta de consolidar direitos, preservar a memória e promover o desenvolvimento sustentável de uma das comunidades mais emblemáticas do país.

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