1º Seminário Mercosul do Rock consagra gênero como patrimônio da América Latina

A capital federal recebeu no último fim de semana (10, 11 e 12 de julho), véspera do Dia Mundial do Rock, o 1º Seminário Mercosul do Rock: Patrimônio, Resistência e Arte na América Latina, que ocupou o Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul) com formação acadêmica, oficinas práticas e articulação de políticas públicas.

O encontro foi uma iniciativa do coletivo e Ponto de Cultura Setorial Cultura Rock — movimento de atuação nacional dedicado ao fortalecimento do gênero por meio de políticas públicas e valorização patrimonial —, com execução a cargo da AACUC (Associação de Arte e Cultura de Ceilândia) e viabilizado por recursos públicos focados no fortalecimento da cultura.

No Distrito Federal, o estilo já é amparado como Patrimônio Cultural Imaterial e conta com o “Dia do Rock Brasiliense”, celebrado no último dia 27 de março. Atualmente, esse mesmo reconhecimento tem avançado no Congresso Nacional por meio do Projeto de Lei nº 4.354/2024, de autoria da deputada federal Erika Kokay (PT), construído com base técnica do próprio Setorial Cultura Rock, que busca oficializar o rock como manifestação da cultura brasileira.

O diretor-presidente do Setorial Cultura Rock e coordenador-geral do Seminário, João Paulo Mancha, celebrou o sucesso do encontro e destacou o impacto do projeto para o futuro do gênero.

“O primeiro seminário Mercosur do Rock mostrou que ele vai muito além de música. Reunimos grandes referências do Brasil, da América Latina, em debates de altíssimo nível, fortalecendo conexões, construindo o conhecimento e reafirmando o Rock como patrimônio cultural, identidade e resistência. E encerrar ainda esse encontro às vésperas do dia mundial do Rock tornou esse marco realmente muito simbólico e uma página especial nessa história infinita do rock que cada participante ajudou a escrever.”

América do Sul

A programação reuniu um time multidisciplinar de palestrantes, pesquisadores e ícones da música para debater a transversalidade do gênero. A integração sul-americana foi defendida por nomes como o cineasta Cleon Homer — que, ao lado do cineasta brasileiro Patrick Grosner, debateu sobre comunicação, memória e o papel do audiovisual na valorização do rock. Além disso, o pesquisador e doutor Cristiano Passos conduziu uma imersão profunda sobre os povos da América Latina e a cultura heavy metal.

A rica diversidade e as pautas sociais do continente também guiaram as discussões do fim de semana. Entre os destaques nacionais estiveram o professor, pesquisador e fundador da banda Arandu Arakuaa, que palestrou sobre a ancestralidade indígena, o rock e o heavy metal, Zândhio Huku: 

A força do rock feminino foi representado, entre outros nomes, pela vocalista da banda afropunk Punho de Mahyin, Natália Moraes, que debateu negritude, punk e pertencimento.

Clemente Nascimento, lenda do punk nacional, fundador da banda Inocentes e presidente da ABMIN, discutiu saúde mental na carreira musical e a vida além dos palcos.

Outros nomes importantes foram Moacir Oliveira de Alcântara, doutor em História e especialista em cultura afropunk, abordando gênero, raça e transgressão; Paulo Marchetti, escritor e ex-apresentador da MTV, responsável pela palestra magna de sábado sobre o rock como patrimônio cultural; e Carlos Lopes, fundador da lendária banda Dorsal Atlântica, que ministrou a palestra magna de encerramento no domingo abordando rock, resistência e liberdade de expressão; Nina Puglia, pesquisadora em Economia da Cultura, que discutiu resistência urbana e inclusão social.

Debates, qualificação e palco

A programação do seminário dividiu sua grade teórica em três eixos fundamentais. O primeiro investigou o rock como instrumento de contestação política face às ditaduras militares do continente (1964–1985). O segundo tratou da contemporaneidade e da diversidade cultural, pautando o mercado musical através da negritude, da ancestralidade indígena e da inclusão. O terceiro eixo abriu caminhos para a real integração latino-americana e intercâmbio prático de experiências com os países vizinhos.

Além dos painéis e reflexões, o evento investiu na profissionalização dos trabalhadores da cultura através de oficinas práticas presenciais inteiramente esgotadas, abordando desde a gestão de redes sociais e tráfego pago para bandas, passando por estratégias de comunicação e assessoria de imprensa, até boas práticas de palco para técnicos e economia criativa.

A celebração artística e a simbiose musical do Mercosul ganharam vida ao longo das tardes e noites. A Sala Multiuso foi palco de intervenções de DJs e performances artísticas, enquanto a apoteose de encerramento de cada dia aconteceu no tradicional Galpão Hugo Rodas. O público presente pôde conferir apresentações enérgicas de grandes nomes da cena, como as bandas Mitsein, Amazing, Podrera, Evil Corpse, Faces dos Caos e Detrito Federal, carimbando o sucesso do projeto.

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