Brasília, a capital federal, é considerada por muitos como um lugar onde o setor público não apenas predomina, mas também define o ritmo da vida cotidiana de seus moradores. Mas é entre os imponentes prédios da Esplanada dos Ministérios e os setores que cercam a região central da cidade que histórias de empreendedorismo teimam em nascer e ganhar identidade própria. Assim aconteceu com Nayhara Branquinho, brasiliense que construiu uma trajetória de mais de dez anos de carreira na área de relações governamentais sem nunca abandonar a vontade de ter o seu próprio negócio.
Em 2020, o desejo deixou de ser apenas um projeto e virou decisão. Nayhara decidiu abrir mão da estabilidade que havia construído ao longo de dez anos de carreira e apostar tudo em um caminho novo. Foi naquele momento que começou a ganhar forma o Pretensiosamente Modesto, restaurante que ela administra ao lado do marido e sócio, Raphael Franco. O empreendimento hoje tem sede no Lago Norte e segue com o objetivo de fortalecer a identidade gastronômica local, propondo que o Distrito Federal fuja do óbvio.
A abertura do negócio, no entanto, ocorreu em um momento particularmente difícil para a jovem Nayhara. A primeira adversidade foi a morte do pai. Em seguida, ela e Raphael precisaram enfrentar as restrições impostas pela pandemia de covid-19, operando por meses apenas com delivery e retirada de pedidos.
“Iniciamos a operação em Sobradinho e a ideia era criar um bistrô, com foco na experiência do cliente e com poucos lugares. Com a pandemia, essa ideia foi frustrada e, durante quase um ano, vendemos frango assado e costela para conseguir manter a casa aberta”, conta Nayhara.
“Foi um período de muita luta, mas eu tinha uma convicção. Não larguei uma carreira de dez anos para vender qualquer coisa. Precisava construir algo que tivesse valor real e propósito, mesmo no formato de delivery”, acrescenta a empresária.
Para sustentar a operação do restaurante, Nayhara apostou na estratégia de usar o rigor técnico da alta gastronomia em receitas populares. Segundo ela, o diferencial estava em tratar o frango assado não como uma mercadoria barata, mas como uma proteína que exige processo. Enquanto muitos estabelecimentos se limitavam a temperar e assar, ela e Raphael recorriam a técnicas de salmoura, garantindo suculência. O mesmo cuidado se estendia ao joelho de porco, que não era simplesmente entregue em uma marmita, mas servido com chucrute artesanal. “Nossa intenção era entregar aquela comida clássica, mas com personalidade e sabor”, recorda.
Nayhara e Raphael cuidavam atentamente das embalagens, garantindo que cada pedido chegasse bem organizado e apresentável ao cliente. Com essa organização estética, os empresários queriam transmitir a mensagem de que o prato representava o empenho e a dedicação de uma chef de cozinha, e não uma produção qualquer.
No entanto, manter esse padrão em meio à crise imposta pela pandemia exigiu uma postura firme. Nayhara conta que recebeu diversos conselhos para apostar em produtos baratos e de alto giro, mas recusou. Ela preferiu vender menos unidades de um produto tecnicamente impecável a descaracterizar a história que tinha começado a construir.
O contínuo rigor aplicado para a sobrevivência do negócio abriu caminho para o próximo capítulo do Pretensiosamente Modesto. Garantida a estabilidade do negócio ainda em Sobradinho, Nayhara e Raphael mergulharam nos estudos de longa fermentação e nos métodos de produção da vera pizza napolitana, produto que entrou no cardápio e se tornou o pilar que permitiu ao restaurante amadurecer sua reputação.
Após quatro anos em Sobradinho, o empreendimento alcançou um novo patamar e o casal de empresários abriu a unidade no Lago Norte. A nova sede tem capacidade para receber até 140 pessoas e permitiu que Nayhara finalmente assumisse o papel que idealizava desde o início, o de se tornar uma chef que pesquisa pratos, valoriza a sazonalidade e trabalha lado a lado com produtores locais. “Sempre fui muito presente nas feiras do DF. Isso fez parte da minha rotina, e intensifiquei esse hábito quando fui para a cozinha do Modesto, buscando entender quem produzia o quê ao nosso redor. Para mim, o cozinheiro deve ser a vitrine da produção de sua região”, explica.
A partir desse interesse de Nayhara, o restaurante estabeleceu e fortaleceu parcerias com a Cabríssima Queijaria Artesanal, a Cervejaria Quatro Poderes, a Vinícola Brasília, a Sucopira, entre outros negócios locais. “Faço tudo o que posso para promover e dar visibilidade aos produtores locais. A nossa briga no Modesto é para construir essa identidade que Brasília ainda não tem consolidada, valorizando quem está sendo produzido ao nosso redor”, complementa Nayhara.

O trabalho de valorização dos produtos locais e a busca por identidade gastronômica ganharam ainda mais força quando o empreendimento começou a receber o apoio do Sebrae no Distrito Federal. Nayhara, que no início da trajetória empresarial utilizou as ferramentas digitais e os materiais gratuitos disponíveis no portal da instituição para organizar a gestão financeira do negócio, viu essa parceria permitir a ela e Raphael dar passos mais largos.
Um dos marcos dessa relação foi a missão empresarial do Sebrae no DF à Itália, no primeiro trimestre de 2025, quando a chef pôde observar de perto como os profissionais da gastronomia valorizam a produção local. Por lá, cada região preserva e certifica seus produtos típicos por meio de selos de origem, com regras rigorosas que definem padrões de produção para queijos, massas e uma série de outros alimentos.
“A ida para a Itália foi justamente para entender o que os países que dão tanto valor à gastronomia regional fazem. Lá, todas as regiões trabalham com selos de produção local, seguindo métricas e padrões rigorosos para cada queijo, massa ou corte. Isso me mostrou que o Brasil, e especialmente Brasília, ainda precisa caminhar muito para valorizar o que é nosso”, pontua a chef.
Além da participação na missão empresarial, o apoio do Sebrae seguiu sendo determinante para dar maturidade ao Pretensiosamente Modesto. A instituição atuou como um verdadeiro catalisador para a marca, gerando visibilidade por meio da participação de Nayhara em campanhas institucionais, como a de Dia dos Namorados, entre outras.
Mais do que exposição, a parceria ainda ofereceu ferramentas para o refinamento técnico do negócio, por meio da participação em iniciativas como o Prepara Gastronomia, programa estratégico do Sebrae estruturado para capacitar, modernizar e fortalecer empresas do setor de alimentação fora do lar. Com esse suporte, Nayhara e Raphael conseguiram lapidar o modelo de negócio e o cardápio, elevando o padrão da operação.
O vínculo com o Sebrae também abriu portas para o fortalecimento do networking e a conexão direta com a cadeia produtiva. Nayhara conseguiu estreitar laços com a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) e outros empreendedores do setor após frequentar o Sebraelab, ambiente dedicado à inovação e à troca de experiências que o Sebrae mantém no Parque Tecnológico de Brasília, o BioTIC.

Uma outra porta aberta pelo Sebrae para Nayhara foi a participação no movimento Chef de Origem, criado para valorizar ingredientes locais e conectar pequenos produtores rurais a restaurantes e chefs de cozinha. Por meio dessa ação, o casal de empresários pôde se conectar a novos fornecedores, reforçando a rede de apoio que sustenta a proposta autoral da casa.
Todo esse processo de amadurecimento como empresária e chef também refletiu na forma como Nayhara passou a conduzir a gestão de pessoas do restaurante. Por trás da operação no salão e na cozinha, está uma equipe que ela descreve como jovem e plural, formada por 20 pessoas. Todos já atuam na escala 5×2, com folga fixa aos domingos e segundas-feiras.
A gestão também prioriza a diversidade de gênero, raça, cor e orientação sexual, incluindo períodos com forte presença de estrangeiros na equipe.
Na cozinha, em especial, Nayhara ainda mantém uma política de desperdício zero. As cascas de banana, por exemplo, são processadas e viram compotas, enquanto os talos de ervas se transformam em azeites aromatizados.

Para o futuro, Nayhara pensa diferente de muitos empreendedores que buscam a franquia, a ampliação ou mesmo a multiplicação desenfreada de unidades. Seus planos são sóbrios e focados em excelência operacional. “Hoje a gente não tem mais essa vontade de crescer lojas. O que a gente quer é se firmar, manter mais qualidade a cada dia, ter a nossa evolução de amadurecimento”, conclui a chef.
Para Letícia Garcia, gestora do projeto de gastronomia do Sebrae no DF, a trajetória de Nayhara como empreendedora sintetiza o que a instituição busca construir junto aos pequenos negócios do Distrito Federal. A chef, segundo ela, tornou-se uma referência dentro do ecossistema empreendedor do DF. “A história de Nayhara representa o potencial transformador do empreendedorismo quando aliado à capacitação, à inovação e à valorização da identidade local. Além da missão empresarial à Itália e da participação no Prepara Gastronomia, a empresária integra diversas iniciativas promovidas pela instituição, participando de palestras, ações de fortalecimento do ecossistema gastronômico e ainda de um painel sobre valorização da produção local durante o Movimente 2026”, analisou a gestora.
“Ao incentivar conexões entre restaurantes, produtores rurais e demais atores da cadeia produtiva, o Sebrae DF reafirma seu compromisso com o desenvolvimento de pequenos negócios mais competitivos, inovadores e capazes de fortalecer a gastronomia do Distrito Federal como um diferencial do território”, complementou Letícia.
Créditos das Notícias Sebrae DF
